Poucas e Boas - Woody Allen

Dezembro 29, 2007

Já que o Allen estava tratando quase de uma lenda (no sentido primário), poderia ter aproveitado as inúmeras versões pros mesmos “causos” e surtado totalmente, mais ou menos como ele ensaiou fazer quando o Ray está no banco de trás do carro aquele. Explorasse as situações sem o compromisso de seguir a linha de uma cinebiografia, já que o Ray é um personagem diferente dependendo da boca de quem sai, poderia ter rendido demais se o Allen tivesse se permitido viajar sem se preocupar com o que os aficionados de jazz iriam pensar. Um exemplo é o mistério envolvendo o que afinal aconteceu com ele depois das últimas gravações, e o Allen aparece e diz “é, depois disso ele sumiu”, tá, mas porra, um milhão de coisas que dava pra ter feito, não acredito que ele perdeu essa oportunidade. Desta forma, o Sean Penn tomou conta do filme, se alastrou como um câncer. PQP, tá genial o cara. Não que o Allen não apareça, tem uns diálogos ótimos. Aquele da Uma tentando analisá-lo “por que essa fixação por trens? Você está tentando sempre voltar, está tentando trazer algo da sua infância?”, “Do que você tá falando? Não quero trazer nada da minha infância, foi uma droga”. De qualquer forma, dá a impressão mesmo de que o Allen diz “tá, vou filmar essa merda aí, porque depois eu vou filmar aquele, e depois aquele outro…”. Mas é um bom filme.


História Real - David Lynch

Dezembro 29, 2007

 

Lynch dizendo “hm, vou fazer um filme normal só pra ver qual é”, e fez a coisa mais linda do mundo. O melhor de tudo é a partir de agora ficar atento a alguns nomes, como Sissy Spacek (pra quem eu nem ligava, e cuja verdade no desespero ao ver o pai no chão me assombrou) e no Richard Farnsworth (que infelizmente morreu em 2000), e mais precisamente, nos olhos dele, sem dúvida os mais expressivos que já vi na vida. Fora que o no final o Lynch prova que quando não tá chapado de pó, tem uma sensibilidade tão aflorada como se estivesse, demonstrando aquele respeito tão bonito já usado pelo Bergman em Gritos e Sussurros e a Coppola no final de Encontros e Desencontros. Simples e lindo pra caramba.


O Cheiro do Ralo - Heitor Dhalia

Dezembro 27, 2007

Fascinante, apesar de surpreendentemente simples. A história de um cara oco que encontra na paixão por uma bunda o mais próximo que já chegou da felicidade. Lourenço é a própria encarnação da merda que escondemos nos subterrâneos (os nossos), iludindo-se da verdade incômoda de que o cheiro é simplesmente dele mesmo, e acreditando no que quer acreditar quando encontra o cara que diz ter lutado na guerra com seu pai satisfazendo-se duma alegria que ele mesmo inventa, comprando literalmente também a boa vontade dos outros. Só não gostei de duas coisas: o lance todo lá com a noiva dele (que poderia ter sido bem explorada. Não mais explorada, apenas bem) e o desfecho, que é meio decepcionante pra quem esperava um surto, ou pelo menos metade disso. Mas é muito bom, e além do mais, serviu pra confirmar minhas suspeitas: Selton Mello é o maior ator do mundo, hoje.


Duro de Matar - John McTiernan

Dezembro 26, 2007

O melhor da série, de longe. Começo dizendo que sou fã do John McClane. Divertidíssimo, inteligente, meio sádico, e sempre se fudendo demais. Há uma série de características que colocam o primeiro filme muito acima dos outros. Primeiro pelo frescor da coisa (e há até uma certa nostalgia, assistindo-o, e sabendo tudo pelo que o John ainda teria que passar), depois por que a atmosfera de tensão criada com toda a ação concentrada naquele prédio, e todos os personagens interligados por um rádio, conversando quase como compadres (de verdade no caso do Powell, por pura ironia no caso do Hans), é uma prisão para os sentidos. Mas acho que, principalmente, o vilão do Alan Rickman jamais seria nem de muito longe ameaçado em qualquer dos outros três filmes. Ele é fantástico, de um sarcasmo muito sedutor. É preciso se segurar pra não torcer por ele. Se do outro lado não estivesse o John McClane, Duro de Matar certamente sofreria desse mal, como tantos outros (que acabam com a morte do cara realmente foda). Ah, sem esquecer as piadinhas com os Johnsons do FBI, haha. Enfim, é tudo que um bom filme de ação precisa ser.


Duro de Matar 2 - Renny Harlin

Dezembro 26, 2007

Quase a mesma coisa do primeiro, mas sem um vilão legal, sem uma atmosfera tão acolhedora, e sem o frescor. Fica uma sensação bem forte mesmo de xerox com pouca tinta do primeiro filme. Mas é bom, é muito bom.


Duro de Matar 3 - John McTiernan

Dezembro 26, 2007

Gosto bastante desse, apesar de achar que não há nada nele além do próprio John McClane (mais ferrado e divertido do que nunca) que o identifique como um Duro de Matar. Mas por sorte a dupla com o L. Jackson (que é um camaleão, impressionante) deu muito certo.


Duro de Matar 4.0 - Len Wiseman

Dezembro 26, 2007

Dáva pra esperar exatamente isso. Terrorismo virtual, McClane amargurado pela idade, com dificuldades de relacionamento familiar (pai reconquistando respeito de filho), etc, etc, etc. É infelizmente o caminho mais fácil que existia. Mesmo assim, vale pela curiosidade de se pegar a todo o instante tentando associar a imagem curtida de agora à divertida e cheia de energia dos outros três filmes. Só acho uma pena que a mitologia da série não tenha sido usada como devia. Umas frases e expressões repetidas aqui e ali e só. Mas é bom, bem mais envolvente que o anterior, ao menos, e a falta de jeito do McClane com a era digital é bem interessante. Eu só queria ter visto o Powell outra vez, nem que fosse apenas citado…


Um Copo de Cólera - Raduan Nassar

Dezembro 19, 2007

 

 

Mais uma vez (porém, principalmente aqui) a linguagem é a estrela do livro de Raduan Nassar, portanto, pouco adianta eu falar aqui do abismo entre os dois personagens que só encontram no sexo a ponte um do outro, nem do latente instinto de liberdade (época do regime), jorrando sua verdadeira face numa verborragia violenta, que termina, ironicamente (se levarmos em conta o próprio estilo do Nassar), revelando-se irrelevante diante dos impulsos do corpo. Mas eu disse que não adiantava falar nada disso. Um trecho, então (quase um pequeno ensaio do que ele viria a escrever):

 

“, e daí passei direto pra fotografia antiga, o pai e a mãe sentados, ela as mãos no colo, o olhar piedoso, os pés cruzados, ele solene, o peito rijo, um grão de prata fechando o colarinho sem gravata, e mais a cara angulosa de lavrador severo, o bigode denso, o olhar de ferro, tendo os dois a ninhada numerosa à sua volta, de pés, mineral, comportada, aqui e ali uma boca torta, atendendo mal ao pedido frívolo do retratista, e aí me detive nos fundamentos e nas colunas e nas vigas inabaláveis daquela estufa, tínhamos então as pernas curtas, mas debaixo desse teto cada passo era seguro, nos parecendo sempre lúcida a mão maciça que nos conduzia, era sem dúvida gratificante a solidez dessa corente, as mãos dadas, a mesa austera, a roupa asseada, a palavra medida, unhas aparadas, tudo delimitado, tudo acontecendo num círculo de luz, contraposto com rigor - sem áreas de penumbra - à zona escura dos pecados,”

 

Sério, leiam, e testem os pulsos, e rasguem os nervos, e contenham se puderem um ímpeto de irromper pela porta aos gritos de “puta-que-pariu-todo-mundo!” e “fodam-se, fodam-se, fodam-se!”.


Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

Dezembro 19, 2007

 

Não pensei que o Machadão pudesse ser tão divertido. Ri de verdade quando li “Ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil”. A linha narrativa segue sem qualquer compromisso as memórias do Brás Cubas, que nitidademente, escreve o que lhe dá na telha, como ele mesmo diz, sem medo de qualquer coisa por já estar morto. Se em um momento estamos às voltas com seus romances (e sua sinceridade que se confunde o tempo todo com o cinismo pelo qual enxerga seus personagens, dificultando ao leitor que diferencie os dois elementos), em outro já somos convocados a opinar sobre determinado fato, e a desconfiar da integridade do narrador. Extraordinário.


Eraserhead - David Lynch

Dezembro 13, 2007

Não dá pra fazer uma análise racional desse filme quando ele subverte seus sentidos deixando que o impacto visual dirija os rumos que a história vai tomando. É um pesadelo, simplesmente. Um conversor de som e imagem em sensações que eu não sei se saberia explicar. A última cena com o bebê, por exemplo. Era um misto de nojo, pena e ódio, de não saber dizer se faria o mesmo que Henry por piedade, por raiva ou por mim mesmo. Fora que de repente você se vê aprisionado numa atmosfera torta de não saber o que vai acontecer dali a cinco segundos. E há medo em tudo, há horror. Não exatamente pela expectativa de algo que venha a acontecer, mas pela situação, é um medo enxertado e presente ativamente do início ao fim naquele quarto, que é um canto obscuro da mente de David Lynch.