Noites Brancas - Luchino Visconti

Janeiro 30, 2008

Lindo, lindo, lindo demais. Como é bom fugir para um mundo encantado, nós do lado de cá, Mario e Natália nas ruazinhas de Veneza. É efetivamente aquele lugar mágico encontrado às vezes em detalhes de pinturas e que se teme tão ingenuamente por talvez não existir, bastando que se entenda que definitivamente não precisa, ele vale inteiro por este momento em que se sente algo impossível de explicar, uma nostalgia profunda de querer sentir saudade daquelas ruas, e não conseguir. E como é triste cair de volta na realidade. Mario lá, e eu aqui, ao olhar pela janela e lamentar sinceramente por não estar nevando lá fora.


O Silêncio - Ingmar Bergman

Janeiro 30, 2008

Tem primeira vez pra tudo, e eu não curti O Silêncio não. Ao contrário do que ocorre em Persona, Gritos e Sussurros e Sonata de Outono (todos absolutos), Bergman parece apenas ter riscado a superfície do choque sísmico entre as duas mulheres, o que talvez venha a ter um motivo mais claro olhando a partir da amplitude da trilogia. Somos encarnados no garoto Johan, e a língua desconhecida, o lugar estranho (o velho com as fotos de velório e aqueles anões são perturbadores), o difícil relacionamento das duas e até aquelas insinuações de incesto com a mãe (que é linda pra caralho mesmo) são todas nossas também. Porque infância é bem isso, fechada em si, absorvendo vez que outras coisas daquele mundo estranho em volta dela.


Sonata de Outono - Ingmar Bergman

Janeiro 29, 2008

É preciso ficar atento, olhar bem para a tela, para a parede atrás do monitor, e se convencer de que, apesar de tudo indicar o contrário, não há de fato um segundo universo escondido sob Sonata de Outono. Eva e Charlotte são tão absolutas no seu passado e suas emoções que é realmente muito difícil separar as coisas e lembrar-se de que elas não existem, apesar de parecerem mais verdadeiras do que metade do mundo. São sem dúvida as duas maiores interpretações femininas que eu vi. Ou, talvez, as duas maiores, simplesmente. É puro hipnotismo observar o rosto de uma enquanto a outra toca piano, daria pra passar a eternidade lendo cada linha de expressão sem nunca decifra-las totalmente. É o fascínio do mistério, outra vez. Sempre há algo há mais em cada trejeito, cada detalhe novo que se desenhe acima das sobrancelhas de Ingrid Bergman, ou para que lado apontem os cantos da boca de Liv Ullman (que, em certo momento, explode num impulso de cólera que chegou a me lembrar de Lavoura Arcaica). Tio Berg parece ter dado o filme de presente pras duas.  Um gentleman, realmente.


Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres - Clarice Lispector

Janeiro 23, 2008

 

A Clarice põe uma beleza tão limpa e delicada em cada frase que não tem como não ficar com uma sensação de perplexidade semelhante ao de uma criança diante do truque da cartola, não entendendo como é possível que caiba tanto em tão pouco. Poderia falar que realmente não se trata de um texto sonoro, mas é melhor dizer que é de uma harmonia que se ouve em outro nível, como uma nota alta demais para a audição humana. É como se todas as palavras, todas as linhas e todos os parágrafos estendidos na odisséia de redescoberta e aprendizagem de Lóri, se resumissem, ao final da leitura, dentro de um único ponto. E você, olhando para este ponto, um pingo de toda tinta usada para escreve-lo, mesmo que não saiba como, o compreendesse absolutamente, em toda sua forma, e tudo que precisava ser dito, fora, através dele, quando se sente todas as palavras, linhas e parágrafos lidos de uma única vez, em menos de um segundo, que no caso da Clarice, vale pela eternidade.


Nazarín - Luis Buñuel

Janeiro 22, 2008

A sucessão de acontecimentos improváveis que ferram com a vida do personagem fazem Nazarín mais parecer um filme dos Coen do que do Buñuel (com o humor negro do mundo inteiro concentrado naquele abacaxi), principalmente porque desse último só tinha visto Um Cão Andaluz e O Anjo Exterminador, e esperava algo pirado demais pra Nazarín. Mas é muito bom e tal e aquela porra toda, na mistura já indissolúvel dos dois tipos de “amor” de Beatriz pelo padre, que se fundem num só, e pela companhia de Andara devida, unicamente, à extirpação da própria culpa.


A Dama de Shanghai - Orson Welles

Janeiro 21, 2008

 

Apesar de a primeira meia hora ser um tanto entediante, é fundamental pela dissonância com o resto do filme, especialmente por sustentar aquela idéia de que as coisas não são tão azuis quanto parecem. O clímax na sala de espelhos é um troço foda do caralho. De repente você não sabe quem mata, quem morre, quem sai correndo, fora que deve ter sido um inferno pra filmar. O Glenn Anders (que faz o sócio do Bannister) é ótimo! Mantendo um sorriso meio doentio no rosto, mas sempre, sempre muito divertido. Enfim, muito bom e tal, mas só uma coisa, que história é essa de que a versão editada pelo Welles tinha 155 minutos? Porra, é o dobro do tempo, é outro filme! Quem sabe o que perdemos, provavelmente uma obra-prima. Não tem nada mais triste que essas coisas que eram pra ter sido e não foram.


Menina a Caminho - Raduan Nassar

Janeiro 17, 2008

É inacreditável, mas o maior problema de Cem Anos de Solidão, que é a ineficiência (pra mim) na criação da atmosfera que carregue a presença da própria cidade como personagem, de repente, talvez pela fascinação de mistério que Raduan Nassar acrescenta dando pouco ou quase nada de informação nos rápidos minutos que levam a personagem ao passeio pelas ruas, torna-se o grande vértice da exuberância do curtíssimo Menina a Caminho. Basta virar a primeira página para se encontrar bem no centro da tranqüila cidadela, construída, certamente, com pedaços da infância do escritor. Os outros quatro textos também são ótimos, embora me desponte uma preferência por Aí Pelas Três da Tarde, onde encontro um trecho que, juro, não faço idéia do porquê, me produz uma sensação que eu desconfio ainda não ter sido apresentado.

 

“, e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre as plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo”.

 

Por simplesmente não conseguir enxergar através destas linhas (além de uma silhueta que me basta para sentir sem conseguir descrever), tornou-se pra mim, assim de repente, a coisa mais linda já escrita.


Cem Anos de Solidão - Gabriel Garcia Márquez

Janeiro 17, 2008

Exatamente um mês com Cem Anos de Solidão dá uma certa idéia borrada da distância entre as últimas e as primeiras páginas, e uma nostalgia interessante como se quase tivesse feito parte da história permanece como herança do livro a quem o lê. É daquelas sensações que, como, aliás, qualquer outra, não se explica. Pra mim funcionou da seguinte forma: as primeiras 50 ou 60 páginas são absolutas na sua fantasia, das melhores coisas já escritas. Não voltaria a aparecer outro personagem como José Arcádio Buendía (ainda que isto soe incoerente dentro da obra), assim como eventos como a peste da insônia só poderiam ser comparados, ainda que de longe, com os quatro anos de chuva, onde o livro, depois de um miolo eficiente apenas em recriar esta atmosfera de nostalgia que seria vivida só mais tarde, retoma aquela antiga força, chegando nas duas ou três últimas páginas como um turbilhão elétrico e ascendente que deixa seqüelas que eu ainda estou para experimentar, já que sinto que não vou conseguir dormir muito e escrevo isso agora mesmo, uns 20 minutos depois de ter lido que “as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra”.


A Metamorfose - Franz Kafka

Janeiro 17, 2008

Bem bom, mas esperava mais e aquela coisa toda. Interessante que o Kafka não sai desvairado com a sua barata gigante explorando coisas (e eu tinha curiosidade exatamente em como ele faria isso, também quanto à reação do Grgório a sua nova situação), “limitando-se” à desconstrução do amor da família com base em elementos aparentemente superficiais, dependendo aí o grau de alcance que a falta de comunicação e uma aparência repugnante atingem, transformando o Gregório num bichinho a quem se dedica um carinho distante, e que se alimenta de vez em quando (talvez inclusive para aliviar a própria consciência, disfarçando o egoísmo de altruísmo). Mas não sei, talvez eu tivesse a idéia de uma obra-prima do humor negro, ou simplesmente de uma obra-prima.


Depois de Horas - Martin Scorsese

Janeiro 10, 2008

Absolutamente fantástico. Além da latência de um humor negro jogado aos fundos de cada cena, Depois de Horas oferece uma atmosfera de pesadelo única no cinema, criando um terreno para que a comédia de “situação absurda sobre situação mais absurda ainda”, que não funciona bem pra mim em nenhum outro filme, desse muito mais do que certo aqui. Não sei vocês, mas eu me senti como em Silent Hill (não o filme, o jogo, que, sério, é obra-prima nos termos do suspense, no aprisionamento de todos os sentidos, na ambientação onírica e na iminência do perigo, tudo amplificado pela interação), com a meramorfose de todas as coisas através da lente da madrugada, um objetivo final (sair daquele mundo torto), objetivos secundários (pegar chaves e objetos que permitam avançar), as ruas vazias, uma ameaça, e a presença dos pontos-chave (bar, boate, apartamento…), para onde sempre é necessário voltar. Sei lá, as sensações foram as mesmas, o que é muito, e que a versão para cinema do próprio game não foi capaz de reproduzir nem a sombra (apesar de ainda assim não ser ruim). Daí essa coisa maravilhosa da subjetividade, de um filme me remeter sensorialmente a um jogo de videogame (nesses termos pejorativos, haha) cuja relação aparentemente inexiste. E Depois de Horas é top 2 do Scorsa, já beliscando Taxi Driver.