Top 20 - Em constante atualização

Fevereiro 29, 2008

1. BTTF (Robert Zemeckis, 85, 89, 90)

2. Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho, 2001)

3. Prelúdio para Matar (Dario Argento, 1975)

4. A Felicidade Não Se Compra (Frank Capra, 1947)

 

5. Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone, 1968 )

6. Casablanca (Michael Curtiz, 1942)

7. Império dos Sonhos (David Lynch, 2006)

8. A Hora do Lobo (Ingmar Bergman, 1968 )

9. Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976)

10. O Samurai (Jean-Pierre Melville, 1967)

11. Noites Brancas (Luchino Visconti, 1957)

12. Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971)

13. Era uma Vez na América (Sergio Leone, 1984)

14. A Tortura do Medo (Michael Powell, 1960)

15. A Mulher Faz o Homem (Frank Capra, 1939)

16. Este Mundo é um Hospício (Frank Capra, 1944)

17. Cidade dos Sonhos (David Lynch, 2001)

18. O Ano Passado em Marienbad (Alain Resnais, 1961)

19. Eraserhead (David Lynch, 1977)

20. Persona (Ingmar Bergman, 1966)

 


Fevereiro

Fevereiro 29, 2008

1.       Por um Punhado de Dólares (Sergio Leone, 1964) – 2,5/4

2.       Por uns Dólares a Mais (Sergio Leone, 1965) – 3/4

3.       Três Homens em Conflito (Sergio Leone, 1966) - 4/4

4.       Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone, 1968 ) – 4/4

5.       Este Mundo é um Hospício (Frank Capra, 1944) – 4/4

6.       Adeus, Dragon Inn (Tsai Ming-liang, 2003) – 3/4

7.       A Flauta Mágica (Ingmar Bergman, 1975)– 1/4

8.       O Homem que Copiava (Jorge Furtado 2003) – 4/4

9.       O Trem do Inferno (Tom Gries, 1975) - 1/4

10.    Ladrão de Casaca (Alfred Hitchcock, 1955) - 2,5/4

11.    O Leopardo (Luchino Visconti, 1963) – 3,5/4

12.    Hiroshima, Meu Amor (Alain Resnais, 1959) – 3,5/4

13.    Um Convidado Bem Trapalhão (Blake Edwards, 1968 ) – 2,5/4

14.     Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1989) – 2,5/4

15.     Rio Vermelho (Howard Hawks, 1948 ) – 3/4

16.     Por Quem os Sinos Dobram (Sam Wood, 1943) – 2,5/4

17.     Os Indomáveis (James Mangold, 2007) – 2,5/4

18.     Perfume (Tom Tykwer, 2006) – 2,5/4

19.     Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (Pedro Almodóvar, 1988 ) – 3/4

20.     Carne Trêmula (Pedro Almodóvar, 1997) – 2,5/4

21.     O Show de Truman (Peter Weir, 1998 ) – 3,5/4

22.     Falcão Maltês (John Huston, 1941) – 4/4

23.     Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976) – 4/4

24.     No Tempo das Diligências (John Ford, 1939) – 2,5/4

25.     Onde Começa o Inferno (Howard Hawks, 1959) – 3/4

26.     Diário de uma Camareira (Luis Buñuel, 1964) – 2,5/4

27.  Matar ou Morrer (Fred Zinnemann, 1952) – 3,5/4

 

 


Os Indomáveis - James Mangold

Fevereiro 23, 2008

3:10 to Yuma, 2007. Dirigido por James Mangold. Com Russel Crowe, Christian Bale e Ben Foster.

Spoilers.

Vou lhe confiar um segredo: tenho um problema seriíssimo com filmes. Nem sei se poderia falar disso assim, vai que se espalhe? Mas preciso dizer a alguém. Tenho um problema realmente grave com filmes. Na grande maioria das vezes, sinto-me tomado de um desejo torpe de ver espalhadas pelo chão as vísceras daquele personagem doce e ingênuo, quase sempre idealizado como meio quilo de uns retalhos ensangüentados, enquanto o pretenso açougueiro em questão, a quem eu devia ter odiado, deixa a cena com um brilho no olhar, um sorriso no rosto, e uns pedaços viscosos de massa encefálica agarrados aos vincos das solas dos seus sapatos, produzindo um hipnotizante som de esguicho enquanto se afastam. Revoltante, eu sei. Imagine você a baixeza, a sordidez subterrânea que me castra. É desumano, é doentio, este meu problema com filmes. Afinal, dá pra acreditar que isso nunca acontece?

 

Os Indomáveis (3:10 to Yuma) é um remake de Galante e Sanguinário (Delmer Daves, 1957), dirigido por James Mangold (Johnny & June), com um roteiro a seis mãos baseado num conto de Elmore Leonard. No filme, Daniel Evans (Christian Bale), sob o nó de uma dívida que pode lhe tirar a casa, aceita, por 200 dólares, integrar a escolta do perigoso Ben Wade (Russel Crowe), um assaltante de diligências que precisa pegar o trem das 3:10 só de ida para Yuma, onde será enforcado.

 

O primeiro elemento que chama a atenção em Os Indomáveis é o aprisionamento do espectador no personagem de William (Logan Lerman), filho mais velho de Dan Evans. William é um tipo extremamente comum em westerns: o adolescente impulsivo que se sente esmagado pelo quase dever de se tornar homem, no caso, com dois modelos distintos entre os quais acha que precisa escolher: seu pai, e o assassino. O diferencial, aqui, é o modo como James Mangold usa William, colocando seus olhos entre a lente da câmera e o deserto. Através deste filtro, Evans é um rancheiro miserável, aleijado e numa posição de autoridade sobre a família que simplesmente não deveria ser dele. Ben Wade, por sua vez, é livre, gentil e fascinante por esconder sob si histórias de tudo que William imagina existir além dos limites do pedaço de terra do seu pai. Evans é digno de pena, Wade, de admiração. O fato de Evans ser um pobre coitado, porém, pouco ajuda para que o espectador se compadeça por ele, mas é muito eficiente em causar uma repulsa, em catalisar um asco que se conecta a um sentimento de piedade de que teria sido melhor, pobre diabo, se ele tivesse morrido ainda na Guerra Civil. O próprio Ben Wade diz, em referência a um de seus homens mortos no assalto: “Tommy era um fraco. Tommy era estúpido. Tommy está morto”. Não há lugar para fracos no Oeste (como já diz o filme dos Coens…) e é por esta mesma crença que William amaldiçoa o teto sob o qual nasceu e jura a si mesmo ser um homem muito melhor que o pai, nem que este homem seja Ben Wade, o criminoso, o assassino, o que tem duas pernas, o que pode alimentar sua mãe e seu irmão. O efeito de Wade sobre William começa logo quando o primeiro mata duas pessoas no fim do assalto à diligência, e este último, ignorando a ordem do seu pai para que recue, observa-o como se estivesse sob efeito de um feitiço.

 

Pode-se estabelecer também uma conexão interessante entre William e Charlie Prince (Ben Foster), o braço direito de Ben Wade no bando. Prince, literalmente, mata e morre por Wade. Nota-se a admiração pelo seu chefe em vários momentos, e é quase latente ao longo do filme. Como quando ele avisa do assalto, na cidade: “acho que uma diligência foi assaltada a uns 16 km. Pelo senhor Ben Wade em pessoa”. Ou quando ele e Evans se encontram pela primeira vez: “Cuidado, rancheiro, está falando com Ben Wade”. O respeito e a subserviência de Charlie Prince por Wade nada mais é que uma evolução do fascínio e encantamento que agem sobre William, provavelmente os mesmos que um dia agiram sobre Prince. Repare no ar de menino do personagem. Muito leve, um tanto distante, como se a perplexidade do impacto causado por Wade ainda existisse, mas sem a inocência, e um resto de infância (vivo no ímpeto adolescente de William) que ainda poderia ser notado, transparece fossilizado, crispado e petrificado pelo sol e a areia do Velho Oeste. Prince é uma criança insegura, de barba para parecer mais velho, e calejado pelas aventuras com Wade, as mesmas com as que William sonha no cercado da sua casa, sob as ordens do seu pai.

 

Mas Prince é mecânico no que faz. Cada movimento, cada instante em que tira a arma do coldre parece estudado e sem margem a falhas. A frieza do personagem (tal como a cena em que deixa alguém para queimar vivo) revela a intenção do diretor de desviar o curso do ódio do espectador do caminho de Wade, para que deságüe inteiro sobre Charlie Prince. Deste modo, Mangold estabelece dois lados bem claros no filme: um, de Prince e seu bando, destinado à antipatia do público; e o outro, de Evans e Wade, o mesmo lado, por sua vez, abençoado com a simpatia do espectador. Ao polarizar seu filme deste modo, Mangold praticamente canta o prelúdio da cena final, infelizmente, a ruína de Os Indomáveis.

 

Tudo até aqui esteve sob a influência de Ben Wade, que domina o filme, seus personagens e seu público, usando sangue e o lado sádico de todos nós (talvez não todos, falo por mim) como componentes essenciais de sua sedução. A imoralidade absoluta e uns vestígios turvos de algo como um código de honra se misturam e se confundem num espiral que invariavelmente leva à morte de algum personagem. Pense bem, e não irá tão longe para descobrir que Wade não mata ninguém durante o filme sem que tenha um motivo concreto, e quando o faz, não consegue esconder o tom cruel mas divertido com que mede seus atos. Um dos elementos que torna, a princípio, o personagem tão forte, é a dificuldade do espectador em se estabelecer em relação a ele, ora desenhando bichinhos, ora matando, ora sendo agradável à mesa, ora matando, ora recitando a Bíblia, ora matando de novo, ora salvando a todos, ora matando mais uma vez. E isso, principalmente, por já existirem dois grandes halos para os quais se dirigem os sentimentos distintos de quem assiste: Evans e Prince. Wade, porém, tanto é um meio termo entre os dois, quanto não há termo nenhum que o meça. Tanto tem os dois dentro de si, quanto é muito maior do que eles. É esta dubiedade que abre fronteiras do personagem, que faz o espectador se incomodar consigo mesmo conforme o que sente por ele, e que James Mangold comete o erro de quebrar.

 

A cena final é a resposta para uma série de acontecimentos estranhos com o roteiro, como se estivesse, nas últimas trinta ou quarenta páginas, rabiscado e cheio de observações. A incoerência do personagem de Wade, um dos motivos do grande problema, levaram, ao que parece, a uma cascata de adaptações que claramente não faziam parte do rumo “ideal” das coisas. A partir daí, você verá com freqüência tentativas frustradas de justificar a mudança brusca de comportamento do personagem. A verdade é que não havia como simplesmente preparar o terreno para um desvio tão violento. Para que desse certo, todo o filme merecia ser trabalhado em torno disso. No entanto, se espera que a plausibilidade dos acontecimentos seja atestada por frases como “você não é assim tão mau” e uma revelação sobre o passado de Wade que constrange à medida que sua função dentro do filme se esclarece. Isto não era necessário. O que realmente me incomoda nem é a esquizofrenia do personagem, mas como o filme deixa claro que quer me enfiar o final goela a baixo, percebendo que ele não se sustenta, baseando-se na possibilidade de eu ser burro demais para perceber o mesmo. “Jimmy, ligaram do estúdio. O final vai ter que ser assim, ó”. “Ah, nem dá nada, só muda isto aqui, aqui e aqui, que a galera sai do cinema com um sorriso deste tamanho”.

 

No chão sujo de um dos estabelecimentos de Abiline, poucos minutos antes da partida do trem para Yuma, Dan Evans fala de suas inglórias e de sua imagem como pai. Ben Wade, então, escolhe um lado. Escolhe ajudá-lo. Os motivos não são claros. Não se sabe se por respeito (depõe a favor desta versão o desenho que Wade faz de Evans na sua Bíblia e todo o tempo que passam naquele quarto) ou por pena (a favor deste toda a construção do personagem de Evans e da principal subtrama envolvendo ele e sua imagem aos olhos de William, pesando no momento exato em que Wade finalmente toma sua decisão, com Evans no chão daquele lugar, contando de como não era “nenhum herói”, com a corrente das algemas de Wade em torno do seu pescoço). Ou, na verdade, pelas duas razões (mais certo que, construída sobre uma base movediça, termina não havendo razão alguma nos seus atos). Mas repito, a verdade é que isso nem me incomoda como deveria. Wade poderia ter feito tudo o que fez sem razão nenhuma mesmo (a quem se preocupa com o que é ou não é plausível em uma ficção), a imprevisibilidade era uma de suas características. O problema está em diretor e roteiristas (sei lá de quem é a responsabilidade) acharem que ele precisava de um motivo e acabarem colocando o filme num caminho auto-destrutivo. A preocupação por delimitar extremos de “bom” e “mau” pode ser vista em toda sua mediocridade na cena em que William tem Wade sob sua mira, no final do filme, como se os dois únicos rumos de sua vida estivessem no limiar daquele gatilho.

 

No entanto, mesmo que Wade fizesse tudo o que fez sem tentativas de se justificar, ainda permaneceria o problema (pra mim é um problema) de ele ter escolhido um lado, dissolvendo a ambigüidade em relação ao público, forçando-o a tomar um partido definitivo quanto a seu personagem. Apenas a virada instantânea de caráter não determinaria sua personalidade, o que acontece se somado àquela frase de William e o trecho em que ele narra como foi abandonado pela mãe aos oito anos. E esta é a razão pela qual comecei este texto como um psicótico com sangue nos olhos (e rezo para que você tenha chegado até aqui antes de ligar para um hospício, sem que antes recomendasse uma lobotomia frontal pra início de tratamento), principalmente, para que minha decepção com o final de Os Indomáveis ficasse mais clara. O cinema é mágico exatamente por nos permitir, de vez em quando, entrar na pele de personagens absolutamente livres no seu mundo, capazes de coisas que simplesmente não poderíamos fazer na palidez do lado de cá da tela. Ben Wade é um personagem fascinante até o momento em que começa a chorar sua infância desgraçada. Não há como não se divertir ao ouví-lo cantar a musiquinha sobre seu enforcamento, e como vê-lo destripando o filho da mãe que ficou com o seu cavalo é agradável, ainda que perturbador por ser agradável, efeitos conhecidos, como nos finais de Laranja Mecânica e Dogville. Se acho um disparate Ben Wade ter matado todo seu bando? Claro que não. Além de ter matado o bando, ele deveria ter matado o Evans, o William, os cavalos e alguns arbustos.

 

Os Indomáveis não deixa de ser um bom filme, apesar desta minha visão sobre as coisas. A tensão da meia hora final é eletrizante (especialmente pra quem se importar com o personagem do Bale), Charlie Prince consegue ser um vilão arrepiante mesmo franzino, com meio metro de altura e voz de menina, e Ben Wade, até certo momento, é um dos personagens mais fascinantes dos últimos anos. Vale a pena ser conferido, por ser um bom filme, por ser um representante de respeito de um gênero pelo qual eu daria tudo para que voltasse em definitivo, e por ser, em última instância, um gosto de sangue guardado na raiz da garganta, e pedindo por mais.

 

2,5/4


Trilogia dos Dólares - Sergio Leone

Fevereiro 23, 2008

Sergio Leone(1964, 1965, 1966)

Se, há mais de quarenta anos, um italiano doido não tivesse resolvido realizar seu grande sonho de filmar westerns no velho continente, talvez, hoje, Ennio Morricone não tivesse uma poltrona almofadada na história da música, Clint Eastwood passaria de ícone e diretor oscarizado a limpador de piscinas em São Francisco, o spaghetti western seria uma página de curiosidades mórbidas no livro secular do cinema, e, certamente, o mundo teria perdido uma das maiores trilogias e mais belas odes à violência já vistas.

 Sergio Leone, o italiano em questão, diretor também da absurda Trilogia da América, mudou a história da 7ª arte ao amplificar o mais ínfimo detalhe de cena ou linhas de expressão em elementos fundamentais do seu soneto visual. Poucos compreenderam tão bem quanto ele o poder de um rosto na tela. A Trilogia dos Dólares, bem mais que um desconhecido metendo bala e levando grana pra cima e pra baixo, é o grande quadro de um velho oeste nunca visto até então. Tão violento e sujo como antes, mas nunca, nunca tão detalhado, tão cultuado, tão inesquecível. Leone saiu da Velha Bota disposto a mostrar ao mundo que resplandecente beleza pode haver na morte de uns vagabundos por algumas moedas.

Por um Punhado de Dólares

Per un pugno di dollari, 1964. Diigido por  Sergio Leone.Com Clint Eastwood e Gian Maria Volonté.

 O começo, apesar de modesto, dá bons sinais do que poderia se esperar de Sergio Leone. Por um Punhado de Dólares é o “pior” filme do diretor (sem contar O Colosso de Rodes, de 1961), e mesmo assim, é fantástico. Xerocando na cara dura Yojimbo (Akira Kurosawa, 1960), e desenhando uns pares de chapéus de aba larga e revólveres no lugar das espadas, Leone exercitava seu famigerado estilo de tomadas longas, contemplação quase tributária à poeira do Oeste, e close-ups que invadiam a alma dos personagens.

 No filme, Clint Eastwood dá vida pela primeira vez ao “pistoleiro sem nome” (chamado em dado momento de “Joe” pelo agente funerário do lugar, o que pouco importa), que chega (montado numa mula e com uma roupa se desmanchando de curtida) à remota cidadela mexicana de San Miguel, um povoado repartido por dois grupos rivais, os Rojo e os Baxter. O Sem Nome (que, como bem diz Tuco no final de Três Homens em Conflito, é um grandessíssimo filho da mãe) percebe que pode ganhar um bom dinheiro com a situação. Porém, ele encontra em Ramón (Gian Maria Volonté, ótimo) um pistoleiro à altura no grupo dos Rojo.

 Sem Nome serve apenas a seus próprios interesses, algo com que as pessoas teriam que se acostumar até os dois filmes seguintes. O Velho Oeste está esquecido por Deus, e quem tem um revólver carregado na mão é o detentor da palavra sagrada, usando-a como bem entender. Assim, o protagonista não tem receio em mudar de lado na luta entre os dois grupos quando melhor lhe convir. No entanto, ainda há (neste primeiro filme) uma preocupação no estabelecimento de papéis entre o pistoleiro e Ramón (no sentido de herói x vilão), quando o personagem de Volonté dá as caras logo executando uma chacina, e o de Eastwood demonstra certa humanidade ao ajudar uma família a fugir da cidade (aliás, este é o único fato que dá pistas do seu passado ao longo de toda trilogia, o que viria a ser confirmado mais tarde no terceiro filme, presumindo, é claro, que se trate do mesmo homem).

 Por um Punhado de Dólares é sem dúvida o filme mais sério e violento da trilogia. Além da longa surra que Sem Nome leva, o extermínio de uma família inteira não é algo simplesmente prático (e também chocante) como em Era uma Vez no Oeste (muitíssimo bem representado, neste especial, pelo Pedro Kerr), mas verdadeiramente terrível e com um alto nível de crueldade. Ramón taca fogo na casa com todos lá dentro e os espera sair para matá-los como gado, visivelmente se divertindo demais com tudo. As cenas impressionam e podem causar repulsa em algumas pessoas ainda hoje, mas são fundamentais para instaurar um clamor de vingança no espectador, amplificado lentamente durante o período de recuperação do personagem de Clint Eastwood. Deste modo, talvez não se admita, mas os mesmos que se viram enojados à violência da chacina, saboreiam a morte de cada um dos assassinos nas mãos do Sem Nome, adotado pelo espectador como instrumento de retaliação, já não importando mais qual a conduta ou os objetivos do personagem, tampouco que seja tão assassino quanto os outros.

 O clímax (homenageado por Robert Zemeckis na Trilogia De Volta Para o Futuro) é exuberante, e demonstra o talento inquestionável de Leone com a câmera, tanto na arte de ampliar detalhes, como na de criar uma atmosfera de tensão e expectativa quase insuportável. A quem não conhece, a seqüência do Sem Nome levando tiro sobre tiro de rifle, caindo, e se levantando sempre, pode ser perturbadora, em vários sentidos. O melhor momento do filme (e talvez o melhor close de toda esta trilogia) é precisamente quando o personagem de Eastwood revela a Ramón o segredo da sua aparente invulnerabilidade. Leone, sem qualquer aviso prévio, nos joga em cima de Gian Maria Volonté. Nós, (no limite do possível) calmos, sentados em nossos sofás atrás da blindagem de vidro da televisão, de repente despencamos adentro de Ramón, assimilando imediatamente tudo que o personagem sente no momento. Com uma imagem, um movimento, Leone consegue o que certos diretores não atingem em toda carreira, e que, em síntese, é a razão de existir do cinema: despertar uma pilha de emoções.

 Mesmo que visivelmente inferior aos outros dois exemplares da trilogia, Por um Punhado de Dólares merece todo respeito do mundo por ter posto no mapa Sergio Leone, Clint Eastwood e Ennio Morricone, relevando ainda que o spaghetti western pedia licença para ser notado. E seria.

Por uns Dólares a Mais

Per qualche dollaro in più, 1965. Dirigido por Sergio Leone. Com Clint Eastwood, Gian Maria Volonté e Lee Van Cleef.

 “Os olhos dele fazem buracos na tela”. Assim Sergio Leone definiu Lee Van Cleef, o homem na pele do Coronel Douglas Mortimer, o verdadeiro protagonista de Por uns Dólares a Mais. Van Cleef é um achado. Depois de tentar Henry Fonda no papel (que recusou pela ainda relativa obscuridade do diretor. Os dois trabalhariam juntos mais tarde, em 1968, na obra-prima Era uma Vez no Oeste), Leone resolveu apostar (assim como fez anteriormente com Clint Eastwood) num desconhecido, acostumado a papéis discretos, incluindo pequenas participações em Matar ou Morrer (Fred Zinnemann, 1952), e em O Homem Que Matou o Facínora (John Ford, 1962). Não se pode dizer exatamente que Van Cleef atua. Quem interpreta seu personagem é a lente da câmera de Sergio Leone. Para ele, resta emprestar o rosto ao personagem. Com feições extremamente marcantes, um olhar que “faz buracos na tela”, e um sorriso entre o escárnio e a arrogância, Lee Van Cleef seria tatuado na história do cinema, tanto aqui, como no filme seguinte, Três Homens em Conflito.

Em Por uns Dólares a Mais, o Coronel Douglas Mortimer, um caçador de recompensas, chega na cidade de El Paso na esperança de capturar El Índio (Gian Maria Volonté, outra vez, e ainda melhor), um conhecido bandido com carimbo de dez mil dólares na testa, que planeja um assalto ao banco do lugar. No entanto, Sem Nome (desta vez apelidado de “Monco”, seguramente por editores de jornal da época) se hospeda no hotel em frente ao do Coronel, também em busca das cabeças de El Indio e seu bando

O relacionamento dos personagens de Eastwood e Van Cleef é sem dúvida o ponto de gravidade de Por uns Dólares a Mais. Tangenciando entre a rivalidade e um paralelo “pupilo x mestre”, os dois usam um ao outro até o fim. O encontro, na rua principal de El Paso, em frente aos hotéis, é o melhor momento do filme, superando até mesmo o duelo final com El Índio. É um choque, acima de tudo, elegante, de dois personagens muito admirados pelas lentes de Leone até então. E o jogo dos tiros nos chapéus é algo fantástico, literalmente, assim como o tom agradável em que a noite acaba.

 Leone ainda flerta aqui com um tema que renderia uma obra de arte três anos mais tarde, em Era uma Vez no Oeste. Quando Sem Nome conversa com o “profeta” em busca de informações sobre seu rival, ouve do velho homem que sua vida fora destruída pelos “malditos trens”, assim como a do Coronel Douglas Mortimer, outrora um valoroso soldado, hoje, reduzido a um carniceiro mercenário. Como em Era uma Vez no Oeste, os novos tempos chegam atropelando a calmaria dos antigos, roubando os espaços de homens como os dois no mundo, e enterrando-os, assim como a todo um gênero saturado e gradativamente abandonado no cinema.

 Daí a conexão com a revelação do passado de Mortimer e El Índio, ampliando-se, ainda, numa reflexão quanto ao destino não apenas destes dois e de Sem Nome, mas do resto dos personagens de toda trilogia, talvez não apenas estrita e deliberadamente o que são pelo que são, mas levados ao gatilho do revólver como único meio de sobrevivência. Como revela a conversa de Tuco com o irmão, em Três Homens em Conflito, quando diz a ele que o que restava para eles era abraçar ou uma arma ou a bíblia, e que seu irmão escolheu o segundo caminho apenas por não ter coragem de optar pelo primeiro.

 No Velho Oeste de Sergio Leone, os homens ou caçavam uns aos outros, ou se enclausuravam numa sacristia, ou morriam de fome.

Três Homens em Conflito

Il Buono, Il brutto, Il cattivo, 1966. Dirigido por Sergio Leone. Com Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach.

“O Bom, O Mau e o Feio”, conforme tradução literal do título italiano, é uma grande brincadeira e uma sentença final de Sergio Leone quanto a definições de caráter: não há definições de caráter. Todos são iguais perante Deus, todos são iguais perante o ouro. Assim como quando Sem Nome (aqui apelidado de “Blondie”, mas que continua podendo tranqüilamente ser chamado de “grandessíssimo filho da mãe”) deixa Tuco amarrado pra morrer no deserto sem qualquer motivo explícito, este devolve na mesma moeda saboreando a vingança enquanto arrasta o homem por 200 km de sol e areia, e que, por sua vez, quase morre de pancada nas mãos do “Angel Eyes”.

No filme, “Angel Eyes/O Mau” (Lee Van Cleef), em mais um dia duro de trabalho, descobre a pista de uma fortuna em ouro. Tudo que ele tem é um nome, e vai cruzar um solo americano crestado pela Guerra Civil atrás dele. Neste meio tempo, enquanto “Tuco/O Feio” (Eli Wallach) arrasta “Sem Nome/O Bom” (Clint Eastwood) por um deserto, o primeiro descobre que o ouro está enterrado num cemitério, mas apenas o segundo sabe o nome da tumba onde ele está. Com uma metade do segredo cada um, os dois não têm outra alternativa a não ser partirem juntos em busca ouro. No entanto, fatalmente encontram Angel Eyes pelo caminho.

Embora o filme mais politizado de Leone seja mesmo Quando Explode a Vingança, em Três Homens em Conflito ele faz questão de opinar sobre a guerra (o mesmo erro fotocopiado através da história e por todo sempre), quando a coisa no Vietnam já comia adoidada. Algumas falas são históricas. “A única coisa em comum entre os do lado de cá, e os do lado de lá, é o cheiro do álcool”, segundo o capitão na batalha pela ponte. Ou ainda: “nunca vi tantos bons homens desperdiçados”, numa rara emissão de opinião do Sem Nome sobre o que se passa a sua volta. Ainda que os pistoleiros do faroeste perdessem suas vidas a troco de umas moedas ou um par de botas, os homens na ponte e os homens no Vietnam perdiam as suas a troco de nada.

Já muito à vontade no seu terceiro western, Leone esbanja humor negro. Três Homens em Conflito é quase uma comédia. Até Sem Nome carrega na ironia ao abandonar Tuco no deserto. “Quanta ingratidão depois de todas as vezes que eu salvei a sua vida”. No final, ao jogar os objetos de um morto junto com ele pra cova, e ainda quando Tuco é focado através do nó da corda no cemitério. A primeira aparição de Tuco na tela, aliás, é algo fora de série. O grande momento sem dúvida é dele, ao proferir uma frase que poderia jogar por terra metade dos filmes com vilões prolixos e megalômanos que discursam ou armam parafernálias absurdas que sempre dão o tempo exato para o herói se salvar. “Quando tiver que atirar, atire, não fale”. Ora, reparem, isso é uma filosofia de vida, quase uma religião.

O mais interessante, especialmente na cena citada, é que apesar de Tuco ser um desgraçado impiedoso, acabamos de certo modo torcendo por ele (ou talvez eu que seja um sádico doentio, mas prefiro acreditar na simpatia do personagem). Algo que se deve muito ao desempenho magnífico de Eli Wallach no papel. E o mais fantástico, o oposto do “Bom”, na visão de Leone, não é o “Mau”, mas o “Feio”. Assassinos são todos, em maior ou menor grau (se é que é certo estabelecer graduação), mas o Sem Nome com aquele jeitão mitificado de quem só fala quando precisa, encontra no Tuco uma personalidade absolutamente contrária (além da disparidade física). Tuco e Sem Nome, pessoas tão diferentes, terminaram afunilados no mesmo rastilho de sangue do velho oeste, quando em outro contexto (lembrando novamente da conversa que o personagem de Wallach tem com seu irmão) estariam livres para seguirem caminhos dispersos.

Muitos consideram este o auge de Ennio Morricone (que está prestes a completar 80 anos de idade). Apesar de eu pessoalmente preferir a trilha de Era uma Vez no Oeste, é inegável que em Três Homens em Conflito ele estivesse tão arrepiante quanto, muito disso porque Sergio Leone sabia exatamente o que fazer para dar a estrela da cena à música do maestro italiano, seguramente o compositor mais genial que já serviu ao cinema. Como quando Tuco corre pelo cemitério em busca da cova de Arch Stanton com L’estasi Dell’oro estourando; cena que invade, arranca e arrasta o espírito de quem assiste. E talvez nem fosse necessário, mas falar de Morricone sem citar a música-tema é não falar coisa alguma. Este é um daqueles casos em que a canção é assoviada por gente que nunca passou nem perto de assistir Três Homens em Conflito, quando o poder e o mistério de uma melodia ultrapassam tudo, até mesmo o filme para o qual ela foi composta.

O truelo final é um absurdo. E muito didático também. É quando todo aquele talento sobrenatural do Leone de manipular pequenos detalhes e criar um ambiente de tensão insuportável, do qual eu falava lá em cima, dispensa todas as palavras. São cinco minutos de Eli Wallach, Lee Van Cleef e Clint Eastwood. Ou melhor. São cinco minutos de gestos, olhos, dedos, dedos inteiros, revólveres e coldres de Eli Wallach, Lee Van Cleef e Clint Eastwood. Tudo em função de criar uma bolha de expectativa que vai se comprimindo sobre o espectador até quase esmagá-lo. E o mais incrível é que o desfecho é relâmpago, quem piscou, não viu.

Três Homens em Conflito é indiscutivelmente o pico da Trilogia dos Dólares. É um épico. O filme que resgatou toda uma geração de passar a infância sonhando com duplas de tiras e motores V8. Talvez, o filme máximo para quem buscou no western uma viagem no tempo de umas fantásticas três horas de muito mais do que diversão, mas de história sendo feito.

 

 O que mais impressiona na filmografia de Sergio Leone, é a espetacular evolução de um filme para outro. Cada um representa um salto, ascendência que se mantém inviolável de Por um Punhado de Dólares (1963) a Era uma Vez no Oeste (1968), primeiro capítulo da Trilogia da América, composta ainda pelo excelente Quando Explode a Vingança, de 1971 (cujos primeiros vinte minutos são das coisas mais geniais já feitas, e que possui ainda uma ruptura maravilhosamente chocante por volta da metade) e Era uma Vez na América, de 1984 (obra-prima absoluta, melhor filme de máfia que existe, e quase tão perfeito quanto Era uma Vez no Oeste).

 A Trilogia dos Dólares é, inteira, uma poesia épica em homenagem à violência, à imoralidade, à ausência de escrúpulos, à ganância e a um dos tempos e lugares mais selvagens de toda história. Quem nunca brincou de meter bala em traseiro de gringo safado, portanto, que atire a primeira pedra. Mas se atirar, ah, meu amigo, é bom que acerte. 

 “Quando tiver que atirar, atire, não fale” – Tuco/Il Brutto, em Três Homens em Conflito.

Por um Punhado de Dólares - 2,5/4

Por uns Dólares a Mais - 3/4

Três Homens em Conflito - 4/4


Por Quem os Sinos Dobram - Sam Wood

Fevereiro 18, 2008

Não é fácil segurar duas horas e quarenta em que, a rigor, não acontece lá muita coisa. E na verdade eu sei lá como o Sam Wood conseguiu. O “inglês” e a Maria estão no filme pra atrapalhar o Pablo e a Pillar, dois personagens absurdos, que segurariam sozinhos três horas de conflitos entre eles e aqueles homens na caverna. A Pillar dispensa apresentações, possivelmente a personagem feminina mais forte em um filme. E o Pablo presume todo um fascínio por estar sempre no limiar entre a burrice e o brilhantismo, entre a autoridade e a subserviência. Ora bêbado e digno de pena, ora tão forte quanto Pillar, e completamente imprevisível. Por Quem os Sinos Dobram sobreviveria (ou seria um filme muito melhor) sem os personagens do Gary Cooper e da Ingrid Bergman (que tá um doce, fofuti), mas não duraria meia hora sem Pablo e Pillar.


Rio Vermelho - Howard Hawks

Fevereiro 18, 2008

Hawks, e já não era sem tempo. Não há muito o que se dizer. A relação de pai e filho entre Dunson e Matthew que é fantástica, com uma resolução de abrir sorriso no rosto, e as transformações do personagem do Wayne aos olhos do espectador, que o ama, o odeia, o teme, e o ama outra vez. E o Montgomery Clift não é mau ator, como me havia parecido em A Tortura do Silêncio.


Cinema Paradiso - Giuseppe Tornatore

Fevereiro 16, 2008

Muito bonito e tudo mais, mas a simples pretensão pela nostalgia nos últimos vinte minutos pressupunham algo não apenas menos carregado e com intenções fáceis de comoção (que, especialmente no caso da nostalgia, podem funcionar no momento, mas se perdem com o passar de poucos minutos), mas simplesmente, forte (sem querer desesperadamente ser forte). Tudo ia bem até o momento, a sensação de passado/infância/lugar-do-qual-vale-a-pena-ter-saudade não havia sido concentrada e saturada em um único ponto, mas permeava todo o filme, presente na atmosfera, de modo abstrato (como tem que ser), não quase palpável. E além disso, o romance com Elena parece ter sido enfiado ali no meio, ainda que com um objetivo (da inocência e do “amor” que jamais se reencontraram com Salvatore), mas infelizmente, mal executado. Mas gostei muito (apesar de não parecer, hehe). Nas mãos de outro alguém (o trabalho do Leone com a nostalgia em Era uma Vez na América, que bem pelo contrário de Cinema Paradiso, não se apóia unicamente no tema, é incomparavelmente melhor), teria sido uma obra-prima, porque tem o potencial. Ainda assim, os últimos três minutos fazem tudo valer a pena.


Um Convidado Bem Trapalhão - Blake Edwards

Fevereiro 16, 2008

 

É difícil assistir The Party, hoje, já tendo visto praticamente todas as gags do filme repetidas à exaustão, em outros posteriores. Mas o fato de nenhum dentre estes outros contarem com Peter Sellers ajuda a estabelecer uma linha mais clara de diferença entre eles, ajudando a nos livrar dos conceitos do que é e não é “clichê” em uma comédia, já incrustados, em um nível além do racional. Mas o clima todo da festa é maravilhoso, especialmente o final. A festa perfeita, sem dúvida, precisa acabar num oceano de espuma, e o garçom bêbado é o tipo de coadjuvante que toda comédia imploraria pra ter.


Hiroshima Mon Amour - Alain Resnais

Fevereiro 13, 2008

A simbiose dos corpos, logo no início de Hiroshima Mon Amor, representa bem o desejo mútuo dos dois personagens de se perderem, um, na correnteza do outro. É uma grande queda na atmosfera da memória, culminando no impacto de que a benção da amnésia tanto é impossível, como inaceitável. É, efetivamente, uma doença, uma paralisia. Não se vive uma nova vida desde que se saiba exatamente o que se está deixando para trás. Hiroshima e Nevérs descobrem, ao final (que, como todo final, nada mais é que um novo início), que precisam um do que há no outro, por pior que seja, para se sentirem completos, como se tivessem, estando juntos, vivido duas vidas, e que um estigma é necessário para se escapar à vala da estagnação na qual os dois se encontravam, resgatando deste passado virulento a metade do mapa com o passado do outro, e que os dois, de mãos dadas, poderão, finalmente, seguirem juntos a vida que pararam há 14 anos.

É lindo, lindo demais. Comentava com o Dan, ontem à tarde, que a única cois aque me incomodou foi a inconveniência de alguns diálogos, ora de uma pretensão que não funcionava, ora agindo como corpos estranhos prontos para serem rejeitados. Isto, principalmente, durante os flashbacks. Mas só às vezes, de qualquer forma, o texto também é genial na maior parte do tempo.


O Leopardo - Luchino Visconti

Fevereiro 11, 2008

Mesmo que, através dos olhos do Príncipe Salinas, O Leopardo seja um filme profundamente triste, não se pode defini-lo interinamente desta forma. Há toda uma beleza e uma latência de esperança na luz viva dos olhos de Tancredi e Angélica. Assim, O Leopardo é mais como a ambivalência da própria mudança, que nunca é apenas triste ou apenas alegre, mas simplesmente, uma mudança. Salinas tem absoluta consciência do seu lugar dentro da história, como se a visse inteira, do alto da sua imponência ao longo do filme, que ele bem sabe, não durará. E é interessante que eu tenha visto Era uma Vez no Oeste e Adeus, Dragon Inn quase juntos, ainda na semana passada, já que o modo como o Príncipe vaga pelo longo e doloroso baile é o modo de quem é substituído no mundo, de quem contempla a própria morte, transferindo elegantemente sua posição aos “chacais” da burguesia, e se retirando sozinho para o escuro de um beco enxertado numa larga avenida pela qual desfilarão os próximos anos.