Especial M. Night Shyamalan no Multiplot!

Junho 17, 2008

Galera do Multiplot! aproveitou o lançamento de Fim dos Tempos para lançar um especial minucioso sobre o polêmico diretor indiano.

http://multiplot.wordpress.com/especiais/m-night-shyamalan/

Minha singela contribuição:

A iminência de perigo sustentada pela casa envolta de um imenso milharal é mantida num nível que serve de base pra toda arquitetura visual de Shyamalan em Sinais. Nem em A Vila, mesmo num ambiente amplificado pela época em que o diretor situa o lugar, a sensação de isolamento e abandono é tão forte, tão depressiva e angustiante.

A mim pouco importa a sub trama da reconquista da fé e de uma unidade familiar anteriormente toda amputada e espalhada pelos cômodos de uma única casa. Porque Sinais é um filme em que todos os elementos são coadjuvantes uns dos outros, desfilando sob a égide escravizante de uma atmosfera de tensão que Shy resgata dos panos de fundo e traz a primeiro plano, exibindo seus personagens não sobrepostos a este lençol, mas detrás dele, por sua vez trespassado de uma mera sombra do que em tese precisaria ser o epicentro apenas iluminado pelos efeitos taquicárdicos da ambientação que M. Night Shyamalan consegue tecer. E apesar da historinha do padre ser bem boazinha e em algumas vezes até tocante, ela mesma serve de degrau para momentos de verdadeira claustrofobia cinematográfica.

Sinais tem algumas das melhores cenas de Shyamalan, halos de redemoinhos sensoriais aos que um espectador pode experimentar, limitadamente, em alguns poucos filmes organizáveis nos dedos. O modo absoluto com que o diretor compreende a sensação sufocante de alguém circundando a casa é o catalisador de todos os grandes momentos dessa obra-prima de essência do suspense. O local por si só já pressupõe uma vaga ameaça (o milharal dá ao mesmo tempo uma noção de amplitude e de lugar gradeado num contraste entre a imensidão do nada por vários quilômetros – reforçando a idéia de que não há ninguém por perto para ajudar – e a sensação terrível de não haver para onde fugir).

Se a silhueta no telhado é quase paralisante, o que se faz posteriormente provoca olhares para os lados em quem assiste, apenas no uso do som e da sugestão de que qualquer coisa está prestes a saltar sobre o personagem, que no caso, é você mesmo, já que aqui não apenas testemunhamos uma família numa casa, mas fazemos parte dela. Shy isola o espectador jogando-o na ilusão de um ser invisível sujeito a tudo quanto é possível neste universo fílmico, tornando todas as câmeras subjetivas, numa das mais eficientes imersões que eu já vi. Sinais me engoliu pra dentro dele nos seus cento e poucos minutos, e eu escapei nem sei como.

Tem umas coisas especialmente perturbadoras. Graham com a lanterna no milharal é a representação exata de um pesadelo no qual, por mais que se corra, você parece não sair do lugar. E o grande centro de gravidade de Sinais, a cena no porão, é apenas daquelas poucas indizíveis e inexplicáveis às quais temos o prazer de nos render. A melhor coisa que o indiano já fez na carreira, e uma das cenas mais opressivas e movediças já criadas (e preciso me lembrar disso pra um próximo top! do gênero), na precisão da coreografia, na simetria de cada micro composição enquadrada nos limites claustrofóbicos daquele porão, e na utilização incisiva de elementos de cena por interferência direta no arranjo da própria cena, como pode ser visto nas variações de luz planejadas por Shyamalan e que parecem transcorrer ao acaso, num processo orgânico que, repito, encarna e aprisiona o espectador num personagem impotente dentro do filme.

Na verdade, o terceiro terço todo de Sinais é inesquecível. O próprio trecho que precede a cena do porão é matéria bruta do ‘alguém rondando a casa’ citado anteriormente, e do som como lâmina do suspense, pelo qual Shy representa a progressão dos invasores entrando no lugar. É também no som que a simples presença do monitorador de bebês como indicador de proximidade de perigo traz boas lembranças de Silent Hill (o game) e aquele ruído aterrorizante do radinho. Aliás, o filme do Christopher Gans só não deu certo pela ausência do elemento.

Sou do bloco do eu sozinho que considera Sinais um dos maiores suspenses de todos os tempos. É um dos poucos filmes que conseguem me prender pelos ombros, me arrastar e me mergulhar completamente no seu universo, atingindo aquele efeito limite, o ponto mais alto até onde o cinema pode chegar, a justificativa mais sintética para a existência desta arte audiovisual teoricamente tão limitada no que tange à produção de sensações que fogem à superfície do contato sonoro ou visual: me fazer despencar para dentro de um outro mundo.

4/4

Luis Henrique Boaventura


Top 10 de Terror

Junho 14, 2008

E mais uma resenha de Sexta-Feira 13, em comemoração aos 28 anos do Jason, só no Multiplot!

http://multiplot.wordpress.com/2008/06/14/top-10-de-terror/


Tops! do Multiplot!

Junho 7, 2008

Caras, o pessoal do Multiplot! tá começando uma série de top 10 de todos os tipos sobre cinema. Vai ser um por semana, toda quinta. E o tema de estréia não poderia ser melhor: Femme Fatales!


La Terza Madre (Dario Argento, 2007)

Junho 5, 2008

http://multiplot.wordpress.com/2008/06/05/la-terza-madre-dario-argento-2007/

La Terza Madre é uma brincadeira que não deu certo. Desde a quase ausência da clássica extrema sofisticação visual e de criação de atmosfera daquele Argento de Profondo Rosso e Suspiria, quanto do deboche, do modo insano na condução de Tenebre e do próprio Prelúdio como proclamação fanática e religiosa do som e da imagem acima de tudo; La Terza Madre aparece movediço, desmembrado dos dois grandes pilares do estilo argenteano, seja pela inexplicável falta de imaginação no uso da câmera e da trilha que numa comparação direta é pulverizada pelas do Goblin (ou até do gênio Morriconi em O Pássaro das Plumas de Cristal, apesar da simbiose irrepetível entre Goblin e Argento continuar como catalisadora absoluta de sensações, cuja força semelhante apenas o próprio Morriconi encontrou ao lado de Sergio Leone), ou pela esquizofrenia do habitual quase anti-roteiro ter sido tristemente ineficiente, o que pode parecer um paradoxo, já que a ‘ineficiência’ (pensando em termos de ‘trama’, ‘história’) é precisamente sua característica mais marcante.

O que pega é que o grande caos comumente reproduzido por Dario Argento (devem até usar o cara em exemplos de “como não fazer…” em certos cursos de cinema…) e que sempre deu tão certo, aqui não funcionou. Porque era pra ter sido uma obra-prima. Todo o gore e o explicitismo celebrados no terceiro terço de Tenebre pulsam eletrizantes pelos 90 minutos de La Terza Madre, mas sem suporte, sem o toque e a inventividade que separariam o sangue, que percorre borbulhando toda a filmografia de Dario Argento, em duas distinções: cinema, e curiosidade.

O ataque de riso no final embasa a sábia decisão do italiano de não se levar a sério (até pelo tema imbecil, que se por um lado rendeu o excelente Suspiria, por outro, não dá pra esquecer que este não se utiliza dos elementos quase cômicos da dita mitologia das três bruxas ao longo de quase toda a trama – que na verdade não existe -, e que perde a força exatamente no didatismo e na inclinação trash dos últimos 10 minutos. Nada contra a inclinação trash, que poderia ter sido utilizada maravilhosamente).

Enfim, com o perdão dos parênteses gigantes e dos parágrafos sem pontos, La Terza Madre não funciona como aquele torvelinho de tensão sufocante, tampouco como brincadeira com o cinema promovida na última potência em Profondo Rosso e Tenebre (e tinha como, o novelo de plots e situações pressupunha mil possibilidades). Aliás, além de proporcionar uns bons momentos com umas mortes bacanudas, La Terza Madre serve finalmente pra alguma coisa: sim, são duas as grandes obras-primas de Dario Argento.

1/4

Luis Henrique Boaventura


Maio

Junho 1, 2008

105. Viridiana (Luis Buñuel, 1961) – 3/4
106. À Beira do Abismo (Howard Hawks, 1946) – 3/4
107. A Hora do Lobo (Ingmar Bergman, 1968 ) – 4/4
108. O Pássaro das Plumas de Cristal (Dario Argento, 1970) – 3/4
109. Suspiria (Dario Argento, 1977) – 3/4
110. Onde os Fracos Não Têm Vez (irmãos Coen, 2007) – 4/4
111. Tenebre (Dario Argento, 1982) – 3/4
112. Eu sou a Lenda (Francis Lawrence, 2007) – 2/4
113. Os Caçadores da Arca Perdida (Steven Spielberg, 1981) – 3/4
114. Indiana Jones e o Templo da Perdição (Steven Spielberg, 1984) – 2/4
115. Indiana Jones e a Última Cruzada (Steven Spielberg, 1989) – 2/4
116. Antes de Partir (Rob Reiner, 2008 ) – 1/4
117. Pinóquio (Hamilton Luske e Bem Sharpsteen, 1940) – 0/4
118. Namorada de Aluguel (Steve Rash, 1987) – 4/4
119. A Bússola de Ouro (Chris Weitz, 2007) – 0/4