Providence (Alain Resnais, 1977)

Julho 27, 2008

O andar compassado, evanescendo vagarosamente para dentro daquela velha propriedade como que para um organismo – porque tudo ali é extensão do corpo e da mente de Clive – , na primeira cena, é um prelúdio fúnebre de reverência. Atravessando o portão com a inscrição “Providence”, Resnais nos convida para entrar num santuário, e o respeito que ele demonstra, passeando contemplativo pelo bosque, mantendo a câmera de baixo para cima, distinguindo um discreto azul celeste entre as árvores, subindo lentamente as escadas e observando muros riscados pela vegetação como varizes de um sangue parado pelo tempo, é coisa de quem sabe e nos avisa que, a partir daí, estamos acessando de alguém o íntimo mais profundo já alcançado no cinema. Memória, imaginação, medos, angústias, mágoas, desejos reprimidos e só manifestados livremente através de sua arte. Somos turistas, visitantes de um Clive Langham totalmente descarnado pela câmera deste francês; um voyeur da alma.

Antes de mais nada é preciso deixar claro que, apesar de inicialmente não parecer, Providence é um filme muito, muito divertido, de um humor jocoso e cruel o bastante até mesmo para os padrões ingleses. Quando aquele percurso descrito acima, aquela trajetória de quase resignação do diretor perante o seu grande personagem, é bruscamente interrompida pelo próprio Clive Langham com um indignado “merda! merda! merda! MERDA!”, Resnais apenas posiciona a câmera dentro da mente do escritor, e ele é quem conduz seu filme, sua história (que começa e termina, aliás, no respaldo clássico de uma ficção: a transformação de alguém num lobisomem).

Toda a evolução do processo criativo de Langham é inspecionada em detalhes por Resnais (e mesmo que seja um escritor, a experiência pode ser estendida a qualquer forma de arte). Logo no início, numa conversa profissional consigo mesmo - e a narração inteira em off é um diálogo interior -, Langham se questiona sobre o que fazer com os personagens. E é maravilhoso, porque a criação autoral é toda um produto das experiências, dos conceitos e das emoções de seu criador. Daí que utilizando sua família como personagens de seu romance, Clive se vê constantemente submetendo-os a algo que secretamente deseja, porque é escrevendo que ele se liberta numa dolorosa noite de insônia, e todas as pequenas peças do seu trabalho são pinçadas e ampliadas por Resnais, como a difícil relação com a morte, incluindo aí seu médico que aparece como um pensamento intruso, e que Clive tenta descartar, mas que termina voltando de vez em quando numa cena crua e repulsiva, cuja identificação atingida com um espectador encarnado no próprio Clive pela visão incômoda é própria do apuro e da sensibilidade de Alain Resnais.

Idéias recorrentes e indesejáveis, aliás – grande merda de quem usa a criatividade como matéria-prima do seu trabalho – aparecem representadas de um jeito bem divertido pelo francês (o que é aquele jogador de futebol? Hahaha), que são os olhos do espectador dentro da imaginação desse velho doido. Porque é exatamente assim que alguém se sente vendo claramente quando Clive não está satisfeito, quando volta atrás e reescreve, ou outras em que adorou o que escreveu. Há inclusive um trecho em que ele se diverte com a sonoridade da palavra “fornicar” e ri sozinho, num nível inviolável de intimidade e introspecção nunca antes acessado.

É onde aparecem principalmente as confissões, onde se nota todo o peso e a dor de coisas feitas e não feitas entremeadas na garganta. A todo momento Clive está punindo seus filhos, punindo sua nora, sua mulher morta por ter lhe deixado muito cedo (e que ele ressuscita e faz amante do próprio filho), mas acima de tudo, está se punindo, se atacando sem a mais ínfima piedade. É triste e assustador quando ele coloca seu filho Claude (um Bogarde que ninguém explica) do outro lado da tela e chora do lado de cá enquanto é desmontado numa inquisição, ou quando o mesmo lhe redige uma carta cheia de ódio (que é a face encontrada pra um desprezo por si mesmo) convertido num remorso que aparece muito através da esposa Molly/Helen Wiener quando ela conta coisas das quais ele não se permitiria arrepender sozinho. Porque Clive é indefeso, é carente, e pede socorro à sua arte pra enfrentar um mundo do qual morre de medo.

Escritor: o onipotente deus do seu mundo. Imperativo no seu silêncio e absoluto na amplitude deste seu universo que tem o tamanho da imaginação. Longe dele, no entanto, as coisas perdem o controle. Talvez o simples fato de que o poder de matar alguém está a mais de uma frase de distância o apavora profundamente. O escritor é um eterno inconformado, arquiteto de uma realidade como ela devia ser. A meia hora final de Providence se passa na tarde do dia seguinte à noite de insônia e epifania de Clive Langham, e é uma tarde pálida e maçante, em que tudo ocorre como se tivesse sido planejado. Seus filhos, seus criados, sua nora e a própria tarde que ele respira têm o cheiro aversivo de uma antevéspera de funeral. Tudo parece minuciosamente armado, pintado, escrito como uma encenação de encontro e agrado ao pobre velho moribundo, e o dia termina com uma realidade muito mais artificial que o seu romance.

O melhor filme do Resnais e um dos dez maiores do cinema. A inventividade, o escárnio, a materialização irretocável do imaginário, o Dirk Bogarde inacreditável, a narrativa de descoberta do real através do irreal muito antes de Cidade dos Sonhos, e ao fim de tudo, o socorro à arte e sua consagração sobre o mormaço inodoro da realidade; Providence não é apenas uma homenagem à 7ª, mas a todas as outras.

4/4

Luis Henrique Boaventura


Batman no Multiplot!

Julho 22, 2008

Textos de toda a saga do morcego no cinema além de um quadro com vinte filmes atacados pelo Coringa, que você vai ter que descobrir quai são. Passe lá!

http://multiplot.wordpress.com/2008/07/21/batman/


Persona (Ingmar Bergman, 1966)

Julho 16, 2008

http://multiplot.wordpress.com/2008/07/16/persona-ingmar-bergman-1966/

É de obras como Persona que se constrói uma filmografia como um longo e absoluto tratado sobre a alma humana, e Bergman é daqueles conhecedores clássicos destes porões, talvez o maior no cinema.

É em Persona que o diretor sacramenta aquele seu jeito quase parasita de fazer cinema, sugando tudo tanto de uma situação, de um conflito, quanto de suas atrizes/personagens (e não se sabe ao certo onde termina uma e começa outra), por conseqüência entregando sua cuidadosa obra de arte a estas duas mulheres inacreditáveis. Tanto no silêncio como artifício poderoso de expressão de Liv Ullmann quanto nos monólogos encharcados de dor de Bibi Andersson. E é em Persona que um diálogo mudo entre o filme e o coração do espectador nunca fora tão eloqüente.

Porque tudo que não é dito em Persona encontra facilmente os caminhos da alma de quem o assiste/vive. Como o impacto daquelas primeiras imagens que ultrapassa uma necessidade de sentido “palpável” para compô-lo além de um nível racional, o que não implica na perda do sentido, mas na sua amplificação. Mais que visual ou textualmente, tudo é resgatado ao longo do filme num círculo mais profundo, o sensorial. A crucificação, o close no olho do cordeiro que se aproxima, na latência da memória, de vários outros, tanto nos olhos de Bibi Andersson quanto nos de Liv Ullmann, assim como na própria caracterização do sacrifício, presente interinamente, como se estivesse numa segunda camada na celulóide. E na seqüência dos créditos iniciais onde os focos representam a ausência de foco, onde a dissonância de certo modo irritante se faz também no desarranjo mental de Elizabeth, traduzido por Bergman através de fragmentos rápidos de visão num estado de cegueira muito mais grave que o físico, como se Elizabeth tivesse apenas vislumbres quase imperceptíveis do seu meio, transformando sua vida numa sucessão de elipses sem, portanto, uma conexão entre si.

Há uma força brutal concentrada tanto no texto como nas imagens e que tece um Persona telúrico no impacto de sua autoridade, composta ora de silêncio ora de verborragia como sobrenomes de suas personagens. Assim como em Lavoura Arcaica, onde André é a literatura, Ana a imagem e os dois o cinema, Alma e Elizabeth se completam na invenção de uma linguagem que está sempre acima do que é dito. O conto erótico, por exemplo, é um verdadeiro catalisador de imagens, assim como o diálogo repetido entre elas, sobre o filho de Elizabeth, como se Bergman instalasse um projetor na nossa imaginação, filmando cenas nos interiores das palavras.

Fora o texto, as imagens também são imperativas no oceano de sua profunidade, atuando sempre na sugestão da camaleônica relação das duas, ora irmãs, ora amantes, ora mãe e filha. A cena do carinho em frente ao espelho e em seguida as duas entrelaçando os pescoços, como se fossem duas cabeças habitando um mesmo corpo, como se a todo tempo uma perfurasse e invadisse a outra, é um resumo belíssimo do painel construído pelo sueco.

Persona é medo, culpa, dor, remorso, ciúme. Um jogo de intoxicação pela memória, de quebra e estilhaço de personalidades. É o atestado absoluto de esquizofrenia dos extremos de ódio e amor não apenas bem mais próximos do que se imagina, mas duas faces de um mesmo e nocivo indivíduo, porque a maldade é manifestação pura, é o estado mais bruto e subterrâneo da alma.

4/4

Luis Henrique Boaventura


O Iluminado (Stanley Kubrick, 1980)

Julho 15, 2008

*este texto é parte intergrante do Especial Stanley Kubrick, no Multiplot!.

O que ocorre em O Iluminado, exercício macabro de horror e hipnotismo de Stanley Kubrick, é uma denúncia. Melhor: uma acusação. De Kubrick contra o espectador, semelhante ao que fazia Argento cinco anos antes. Trancados num universo de uma quietude e serenidade perturbadoras, por ironia os catalisadores da mais absoluta cólera (das que talvez nenhum outro filme seja capaz de despertar), nos vemos sem uma base onde nos sustentarmos senão o próprio assassino. Porque Kubrick teve a ousadia de confrontar o espectador com tudo aquilo que o ser humano mais se força a reprimir. A imensa maioria simplesmente não tem coragem, e se volta contra ele, terminando de todo modo voltando-se contra si mesmo, pois todos o temos dentro de nós. Sim, sr. Jack Torrance, olhe-se no espelho abaixo, e boa leitura:

O Iluminado (The Shining, 1980)

O simples e inofensivo ato de pensar estar na pele de Torrance é intimidador, e talvez a ficção, mais especificamente o cinema, seja o único modo de enfrentarmos algo que nos é implícito: a violência. Mesmo que contra as pessoas que mais amamos. E nenhuma outra obra representaria com tanta autoridade o saciamento deste desejo primário, desta fome, da vazão sem culpa permitida pelo cinema a instintos que somos forçados a reprimir por vivermos numa sociedade incondizente com os animais que inutilmente lutamos para esconder debaixo das roupas. É em O Iluminado que Stanley Kubrick ensaia entregar uma válvula, um passaporte para aquele mundo onde podemos liberar raiva e fúria acumuladas sem maiores problemas. Onde se ensaia o sentido mais bruto de “liberdade”, cortado ao meio pelo final feliz mais triste de todos os tempos, porque mesmo que eu ainda o ame, O Iluminado permanece o filme mais frustrante da minha vida.

(Jack Torrance, um escritor bloqueado e fracassado, acompanhado pela mulher e seu filho, tem sob sua responsabilidade o Overlook Hotel ao longo de todo o inverno. O lugar é um monstro de madeira e concreto incrustado no tronco das montanhas rochosas que, fora de temporada, permanece lacrado e absolutamente isolado pela neve durante longos e solitários cinco meses.)

Mas vamos por partes, como diriam os Jacks. Primeiro que ao mesmo tempo em que me magoa profundamente por perder a chance de ser meu filme favorito, O Iluminado é uma das experiências mais incisivas que um cinéfilo pode encontrar, esquadrinhado de contornos cuidadosamente dispostos na ilusão de um gradativo sufocamento. É assim que Kubrick deixa uma sensação de “ninguém ouvirá seus gritos” bem clara desde a belíssima cena inicial, quando somos levitados em um vôo panorâmico escoltando o modesto automóvel de Jack Torrance que, tocado nas lentes dessa câmera, parece escorregar e abrir caminho virgem até os umbrais do Overlook. À primeira vista, a impressão é que tanto o hotel quanto o próprio Jack são inofensivos. O primeiro está lotado, aconchegante, exala um clima de civilização que se dissiparia nos vácuos abertos com a queda do inverno. O segundo é simplesmente a pessoa mais simpática da terra. Os dois juntos, no entanto, são faces de um mesmo demônio, águas de uma mesma correnteza de loucura alcançada através do fracasso pessoal, da solidão e do desespero; são o princípio de uma sensação que simplesmente não se encontra em filme algum.

“Às 5 da tarde vai parecer que ninguém nunca esteve aqui”. Nada poderia expressar melhor o que se sente através de Jack, Wendy e Danny, depois que o mundo deixa as montanhas rochosas para trás, que esta frase do gerente do hotel. Não sei se era necessário dizer, mas provavelmente ninguém saberia usar os largos salões e longos corredores do Overlook, contra os personagens, tão bem quanto Kubrick. Basta lembrar do circuito traçado por Danny entre curvas, cômodos, salas, um corredor e outro… Algo parecia prestes a saltar na frente do garoto, e o som, sim, o som é maravilhoso. O ruído das rodas de plástico em atrito ora com o piso e ora com os carpetes do hotel teria passado como coadjuvante inútil, não fosse a mão precisa do diretor sobre a edição de áudio, que transforma um simples barulho numa trilha incomparável. O simples passeio de Danny torna-se tétrico e digno de olhos ardendo, vermelhos, atentos, distraídos ao fato de que já não piscam a algum tempo, apenas seguindo a steady cam que rasteja discreta atrás daquele frágil triciclo. E a esta altura, já completamente imerso numa atmosfera de iminência completamente inimitável, tente se lembrar da primeira vez que você viu O Iluminado. Tente resgatar aquela mesma sensação, de quando Danny vira em mais um corredor e lá estão. Elas… Eu não contei exatamente quantas curvas o garoto faz, mas mesmo hoje, depois de ter visto a mesma cena setecentas e cinqüenta e duas vezes, o clima arrepiante pela simples espera da aparição certa daquelas duas garotinhas permanece eficiente. Ainda faz com que eu olhe pra trás e cheque os cantos obscuros da casa. Tudo ali é iminente, tudo aponta para um ataque, fúria, uma revolta do hotel. Como se não bastasse os ter engolido, agora Jack e sua família são digeridos nas entranhas daqueles salões vastos e gradativamente claustrofóbicos, como se o concreto se contraísse e esmagasse aquelas pessoas, quebrando como palitos um a um dos seus suportes emocionais e psicológicos.

E é aqui que Jack Torrance começa a ser afetado. Em primeiro lugar, pela frustração e incapacidade de levar seu projeto adiante. Posteriormente, pelos “fantasmas” e eventos “sobrenaturais” do Overlook.

Quando Wendy e seu filho Danny entram no labirinto, Kubrick utiliza-se de um recurso visual não apenas muito bonito, mas que explora ao máximo o potencial da cena e a traduz numa metáfora que funciona maravilhosamente bem (e é quase impossível metáforas funcionarem). Somos acompanhados pelos becos estreitos do labirinto onde temos novamente a sensação de que a qualquer momento iremos nos deparar com o horror. O que, de certa forma, não deixa de acontecer… Numa das salas do hotel, Jack observa uma maquete do labirinto. O verdadeiro agora é mostrado em uma vista aérea, onde Danny e Wendy caminham à deriva até encontrarem o centro do lugar. Ali começa a se manifestar um desejo retido de Jack, um utópico domínio total sobre sua mulher e seu filho, perdidos numa situação em que ele controla. Curioso também como em O Iluminado os dois grandes pontos de gravidade brilham alternadamente e em proporções dignas de um respeito muito bem dosado. Depois de um mês no hotel, fica visível a fragilidade da paz (silenciosa, mansa, insuportavelmente vaga, esta paz que nunca foi uma maldição tão terrível no cinema) no lugar quando Jack Nicholson/Torrance surge, em uma das melhores e mais assustadoras imagens do filme, olhando fixo de baixo para cima pela janela, acessando também uma janela mental, transpassando para uma dimensão de valores distorcidos de onde não se sai mais. E ele não pisca. Daquele momento em diante, fica impossível imaginar outro ator além do filho da puta do Nicholson no papel. Ele nasceu pra ser Jack Torrance. Ou o contrário.

Aquele homem simpático, aquele chefe de família amoroso que aceitou 5 meses de isolamento por sua mulher e seu filho, que nunca os machucaria, entra numa mecânica cirúrgica de transição. E um ponto-chave deste processo acontece quando Danny vai buscar um brinquedo no quarto e encontra o pai, sentado na cama. Cena INACREDITÁVEL, antológica, brilhante, absurda, intransferível às limitações do papel. Fica clara desde já a influência do hotel sobre Jack, principalmente quando este repete aquela incômoda frase das garotinhas. Nunca um nível tão profundo de terror fora alcançado desta forma: a latência do perigo que Danny corre nas mãos do próprio pai, sentado no seu colo, é de um mal-estar recôndito,  uma dor muda, terrível demais para se mostrar. Não há qualquer paralelo que possa ser traçado com este momento no cinema.

Os efeitos corrosivos do hotel passam a modelar um Jack Torrance absolutamente imprevisível, e a cena do pesadelo é especialmente terrificante. E acho até que vou poupá-los da redundância e nem citar mais a interpretação inenarrável do cara. A partir de agora, toda vez que aparecer o nome dele vocês, por favor, associem. Daqui em diante, Jack toma para si um motivo para odiar e reprovar o comportamento de Wendy, sentindo-se injustiçado pela acusação da mulher e, posteriormente, por seu suposto objetivo em destruir todas as suas possibilidades de finalmente subir na vida. Wendy passa de companheira à grande responsável pelo fracasso profissional do marido. É aqui também que Jack passa a ter contato (bem freqüente, aliás) com os “fantasmas” do Overlook.

Muito da minha tristeza com o filme é que, quando penso nele concebido a partir deste ponto, enxergo um gigantesco potencial para uma obra-prima incomparável. Dizem que na época Stephen King ficou alucinado com Kubrick por causa das inúmeras modificações (cortes) na sua obra. Eu não li o livro (nem vou, pra mim só existe uma obra de arte chamada “O Iluminado”), mas está bem claro pra mim que Kubrick pegou o pano de fundo de O Iluminado e simplesmente tomou outro rumo com o desenvolvimento do projeto. Segundo King, o cineasta transformou sua OP do horror num drama doméstico. Está errado. Está infelizmente errado. Caso O Iluminado tivesse se assumido totalmente como um terror psicológico (e deixando claro: isto não significa necessariamente a dissolução da ambigüidade na dúvida quanto à realidade ou à ilusão afetando os personagens, pelo contrário, a dúvida permaneceria enxertada e apodrecendo na memória do espectador), caso tivesse apenas sugerido ao invés de factuar os traços sobrenaturais do livro, os poucos elementos que ainda restavam dele, O Iluminado teria sido efetivamente o que quase foi: um filme sobre a degradação psicológica promovida em um lugar onde as pequenas frustrações e desentendimentos entre o casal Torrance são amplificados, colocados sob uma lente de aumento (a penetrante lente de Stanley Kubrick), revelando as frágeis estruturas e conceitos de um homem sobre sua vida e suas prioridades distorcidas. E teria sido o maior filme do mundo, somado ainda ao pequeno detalhe quanto ao sucesso de Jack na sua ‘missão’.

Vistas sob esta premissa, as cenas com fundo sobrenatural são especialmente perturbadoras. Tanto o diálogo entre Jack e Lloyd, como com seu “mentor” Grady, no banheiro vermelho. Ou a aversiva cena no quarto 237. A conta é simples: os fantasmas dentro da cabeça de Jack, funcionam. Fora, não (apesar de Danny e seu dedo falante servirem maravilhosamente bem na fundação de um instinto assassino contra ele). Conseqüência da admirável opção e boa intenção do diretor ao reduzir (pra mim, ampliar, imensuravelmente) o horror sobrenatural DE KING a um horror doméstico DE KUBRICK. Na verdade ele devia era ter mandado o King à puta que o pariu e esquecido completamente do livro. King entenderia. Não devia nem ter lido o livro, devia ter lido a sinopse.

A liberdade que Kubrick toma com o cozinheiro Halloram (que tinha outro destino no livro) é um indício desta intenção, uma brincadeira maravilhosa com o público e principalmente com aquele fã de Stephen King que não esperou uma adaptação, uma visão de outra pessoa sobre a obra, mas a própria obra xerocada e descrita visualmente em detalhes. Isso um cinegrafista de telejornal faz. Kubrick, não. Este tem o cuidado de iniciar uma sub-trama envolvendo a relação de Danny com Halloram, de partir do filme através das insinuações paranormais do garoto, de mostrar tooooooda a odisséia percorrida pelo cozinheiro (identificado como a única esperança de salvação de Danny e Wendy) para finalmente chegar lá e… levar uma machadada no meio (e para as celebradas premonições do pirralho - valorizadas inclusive pelo título do filme - não servirem pra merda nenhuma). É quando um “ih, fudeu” cabe na boca de qualquer um que ainda torce pela mulher e pelo filho chato do pobre Jack.

Pobre Jack… Não sei quem inventou que O Iluminado é um terror, um suspense, sei lá o que… É um drama, pesadíssimo, dos mais depressivos. A triste história de um pobre e bom homem que fracassa (como tudo em sua vida) ao esquartejar sua mulher intragável e seu filho insuportável. E é engraçado como um único detalhe pode mudar INTEIRAMENTE um filme. Acontece com o final de O Samurai, de Jean Pierre-Melville. Sem aquela revelação de cinco segundas e uma frase, tudo se perderia. No caso de O Iluminado, se perdeu. Shelley Duvall consegue (involuntariamente, mas quem se importa) criar o personagem mais irritante e odiável de todo o cinema. E teria sido brilhante, caso um único detalhe ocorresse: suas vísceras decorando os tapetes do hall de entrada do Overlook Hotel. Não me entra na cabeça que Kubrick tenha perdido a oportunidade de lavar a alma do espectador no sangue da piranha, ou a atirado ele mesmo da escada na qual a obrigou a repetir a mesma cena mais de 120 vezes.

E é no início da loucura total de Jack (ou, talvez, seu momento de mais pura sanidade) que se sustém uma esperança rara de redenção, logo após pegar sua mulher lendo o que ele escreveu durante todo o tempo. E isso é das coisas que, apesar de tudo, me fazem amar DEMAIS O Iluminado. É aí que Jack Torrance percorre o grande salão principal e sobe as escadarias pressionando Wendy, e nós vamos com ele. Tudo é perfeito, até mesmo a própria Shelley Duvall, que tudo que faz é chorar, soluçar e balançar um taco de basebol. Copiaria o texto inteiro se pudesse, mas preciso citar um diálogo em especial. Algo que vai me fazer esperar e sempre querer rever O Iluminado apesar da sensação profunda de frustração que me resta com os créditos. “Wendy, querida, luz da minha vida, eu não vou te machucar. Você não me deixa terminar a frase, eu não vou te machucar. Só vou esmagar os seus miolos. Esmagar até o fim”.

A cena que virou capa do filme está prestes a acontecer. A simples visão de Jack, manco, carregando aquele machado pelos corredores do hotel, já é algo de estilhaçar a espinha. E Kubrick, um cirurgião preciso, opera os momentos finais de O Iluminado com quem escultura uma herança para a humanidade, como quem filma o último filme, quem escolhe como deseja ser lembrado. Ele traduz a fúria de Jack para a tela, algo aparentemente impossível, ao acompanhar com movimentos rápidos cada machadada desferida contra as duas portas, a do quarto e a do banheiro. É hipnotizante, e de qualquer forma, não se esperaria nada diferente de um lingüista visual tão habilidoso.

Muitos já devem saber, mas não custa citar aqui: a eterna frase “Here’s Johnny!” (uma referência a Johnny Cash) não constava no roteiro, foi improvisada no calor do momento por Nicholson. Momento escolhido, em uma pesquisa realizada pela emissora inglesa Chanel 4, como o mais assustador da história do cinema. E também não falo mais nada. Pare entre este parágrafo e o outro, vá lá contemplar Jack Torrance arrebentando com a porta do banheiro, e volte aqui.

Depois de termos o gostinho de ver Jack matando Halloram (algo como um coito iniciado, mas interrompido mais tarde…), entre takes extremamente gargalhantes da sua mulher correndo, esvoaçante, com aquela faca na mão, como um dildo vibrando na última potência, podemos nos embriagar de medo e tensão em mais uma cena antológica: a perseguição no labirinto. E é impressionante a quantidade de cenas fortes que recheiam O Iluminado, tornando-o, apesar de seus problemas (ou meus, como queira), um dos filmes mais marcantes e reassistíveis que repousam empoeirados nas prateleiras de fundo das locadoras. Talvez até por isso ele veio a ser reerguido do tombo inicial apenas anos mais tarde (como já cansou de se repetir na história…). É um clássico, ganhou brilho com o tempo, provocou nas pessoas um desejo estranho de ser visto novamente, porque tem aquela cena, sim, aquela do banheiro, e aquela do labirinto, do rio de sangue… O Iluminado ganhou força o suficiente para se desprender da sombra do livro de King que tanto o perseguiu. Só a aparição de Jack congelado no labirinto é algo como um evento histórico, e conseqüentemente, a cena mais triste do filme. É torturante ouví-lo gritar e gemer, mancando, morrendo de frio, ao ouvir o barulho do trator se distanciando, sem conseguir despedaçar Danny e Wendy, depois de tanto sofrimento.

Não era Jack Torrance um louco reprimido, como, ouso dizer, todos somos? Qual a diferença entre matar e o desejo de matar quando uma consciência modelada desde a infância e as possíveis conseqüências de tal ato (quanto egoísmo, ora vejam) são as únicas coisas que nos freiam? Não estaria na loucura repousado um último fio de sinceridade? Apesar de estar numa constância gótica, num vício social, numa repressão de sentimentos equiparada a uma repressão sexual. Porque a livre vazão às sensações não condiz com este novo estado racional, esta peça recém aprimorada e quase alienígena que luta o tempo todo contra as vontades do recipiente animal na qual foi incrustada. O ser humano é fragilizado por esta esquizofrenia, esta inexistência de um identidade, é um estágio intermediário entre o animal e algum ser puramente racional que possivelmente nunca venha a existir. Enquanto isso, a negação dos instintos, o que separa Jack de um cachorro, é o que pode ser chamado de um estado constante de loucura, quebrada no evento de um domínio sentimental absoluto. Porque Jack quis matar Danny e Wendy a vida toda, apenas precisou limpar sua cabeça de completamente tudo para perceber que as comportas da sua fúria o estavam sufocando, e que ele precisava simplesmente abrí-las, que tudo ficaria bem. 

Mesmo assim, mesmo que eu me sinta irressarcivelmente lesado, como um apaixonado por cinema, por ter perdido entre os dedos o maior filme de todos os tempos, é preciso se entregar diante do encontro de dois dos caras mais talentosos que já se meteram com essa 7ª arte. E é um duelo silencioso. Diante ou por trás das câmeras, Nicholson e Kubrick se revezam e se completam em alguns dos melhores momentos desses mais de cem anos de cinema. E Kubrick não deixa de se assinar explicitamente, inserindo uma última imagem que embaralha todo o quadro perfeitamente montadinho e compreensível que o espectador tinha ao final do filme. Porque Jack vive um ciclo e, amaldiçoado, acaba retornando ao hotel para ser enterrado nele. O diretor faz de Jack Torrance um resumo do seu próprio estilo. Um círculo fechado, um pesadelo, um labirinto infinito pelo qual, em toda obra com a insígnia do Stanley, somos convidados a passear, a nos perder e a enlouquecer tentando nos encontrar. Pena que apenas quase deu certo. Teríamos dado de cara com um Jack Torrance manco e de machado na mão…

4/4

Luis Henrique Boaventura


Especial Stanley Kubrick!

Julho 7, 2008

O Especial do Kubrick tá rolando no Multiplot!. Será um texto por dia, além de uma promoção pra concorrer a uma das novas EEs:

Basta escrever um texto sobre um dos 13 longas do diretor. Participe!

http://multiplot.wordpress.com/especiais/stanley-kubrick/


Top! Décadas: 80

Julho 3, 2008

Saiu os tops da década de 80 no Multiplot!. Participe!

http://multiplot.wordpress.com/2008/07/03/top-decadas-80/


Os Quatro do Apocalipse (Lucio Fulci, 1975)

Julho 2, 2008

Os Quatro do Apocalipse se ensaia como um western fantasticamente singular para acabar sendo atravessado por uma direção preguiçosa e sem inventividade alguma (com o uso de câmera subjetiva mais imbecil que eu já vi). Estou inclusive surpreso por encontrar um Fulci tão diferente do qual ouvi falar. Não há talento, não há criatividade, não há intimidade com cinema. Só o que há é um princípio de ousadia (contida), que ainda sozinha não serve pra nada.

A bem da verdade é que a violência (representada em especial pelas duas coisas que prestam no filme: a cena da tortura do xerife e a do canibalismo) é o único elemento capaz de levar o espectador do início ao fim de uma odisséia incrivelmente maçante pelo deserto. E que tinha tudo pra ser espetacular, o que é mais triste.

Fulci não se desprende em nenhum momento dos vínculos com o western clássico. Sempre que ameaça libertar a imaginação e mandar tudo à puta que pariu, recua e se apega ao que já foi feito e que ele sabe que dá certo. Toda a condução da trama da vingança é constrangedora, incluindo aí aquele final que surge como se houvessem itens a cumprir numa cartilha de como se fazer um filme. Sempre que o Fulci louco começava a parecer tomar o controle, o cdf baixava com tudo, o que acaba fazendo da própria ausência de identidade de Os Quatro do Apocalipse algo ruim.

Prefiro culpar a insegurança, e deixar pro cara um resto de crédito.

1/4

Luis Henrique Boaventura


Junho

Julho 1, 2008

120. La Terza Madre (Dario Argento, 2007) – 1/4
121. O Sexto Sentido (M. Night Shyamalan, 1999) – 4/4
122. Corpo Fechado (M. Night Shyamalan, 2000) – 4/4
123. Sinais (M. Night Shyamalan, 2002) – 4/4
124. A Vila (M. Night Shyamalan, 2004) – 4/4
125. Ponte Para Terabítia (Gabor Csupo, 2007) – 1/4
126. A Colheita do Mal (Stephen Hopkins, 2007) – 1/4
127. O Grande Golpe (Stanley Kubrick, 1956) – 3/4
128. Os Quatro do Apocalipse (Lucio Fulci, 1975) – 1/4
129. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Steven Spielberg, 2008 ) – 4/4
130. Os Outros (Alejandro Amenábar, 2001) – 3/4
131. O Iluminado (Stanley Kubrick, 1980) – 3/4
132. Sweeney Todd (Tim Burton, 2007) – 0/4


Especial M. Night Shyamalan no Multiplot!

Junho 17, 2008

Galera do Multiplot! aproveitou o lançamento de Fim dos Tempos para lançar um especial minucioso sobre o polêmico diretor indiano.

http://multiplot.wordpress.com/especiais/m-night-shyamalan/

Minha singela contribuição:

A iminência de perigo sustentada pela casa envolta de um imenso milharal é mantida num nível que serve de base pra toda arquitetura visual de Shyamalan em Sinais. Nem em A Vila, mesmo num ambiente amplificado pela época em que o diretor situa o lugar, a sensação de isolamento e abandono é tão forte, tão depressiva e angustiante.

A mim pouco importa a sub trama da reconquista da fé e de uma unidade familiar anteriormente toda amputada e espalhada pelos cômodos de uma única casa. Porque Sinais é um filme em que todos os elementos são coadjuvantes uns dos outros, desfilando sob a égide escravizante de uma atmosfera de tensão que Shy resgata dos panos de fundo e traz a primeiro plano, exibindo seus personagens não sobrepostos a este lençol, mas detrás dele, por sua vez trespassado de uma mera sombra do que em tese precisaria ser o epicentro apenas iluminado pelos efeitos taquicárdicos da ambientação que M. Night Shyamalan consegue tecer. E apesar da historinha do padre ser bem boazinha e em algumas vezes até tocante, ela mesma serve de degrau para momentos de verdadeira claustrofobia cinematográfica.

Sinais tem algumas das melhores cenas de Shyamalan, halos de redemoinhos sensoriais aos que um espectador pode experimentar, limitadamente, em alguns poucos filmes organizáveis nos dedos. O modo absoluto com que o diretor compreende a sensação sufocante de alguém circundando a casa é o catalisador de todos os grandes momentos dessa obra-prima de essência do suspense. O local por si só já pressupõe uma vaga ameaça (o milharal dá ao mesmo tempo uma noção de amplitude e de lugar gradeado num contraste entre a imensidão do nada por vários quilômetros – reforçando a idéia de que não há ninguém por perto para ajudar – e a sensação terrível de não haver para onde fugir).

Se a silhueta no telhado é quase paralisante, o que se faz posteriormente provoca olhares para os lados em quem assiste, apenas no uso do som e da sugestão de que qualquer coisa está prestes a saltar sobre o personagem, que no caso, é você mesmo, já que aqui não apenas testemunhamos uma família numa casa, mas fazemos parte dela. Shy isola o espectador jogando-o na ilusão de um ser invisível sujeito a tudo quanto é possível neste universo fílmico, tornando todas as câmeras subjetivas, numa das mais eficientes imersões que eu já vi. Sinais me engoliu pra dentro dele nos seus cento e poucos minutos, e eu escapei nem sei como.

Tem umas coisas especialmente perturbadoras. Graham com a lanterna no milharal é a representação exata de um pesadelo no qual, por mais que se corra, você parece não sair do lugar. E o grande centro de gravidade de Sinais, a cena no porão, é apenas daquelas poucas indizíveis e inexplicáveis às quais temos o prazer de nos render. A melhor coisa que o indiano já fez na carreira, e uma das cenas mais opressivas e movediças já criadas (e preciso me lembrar disso pra um próximo top! do gênero), na precisão da coreografia, na simetria de cada micro composição enquadrada nos limites claustrofóbicos daquele porão, e na utilização incisiva de elementos de cena por interferência direta no arranjo da própria cena, como pode ser visto nas variações de luz planejadas por Shyamalan e que parecem transcorrer ao acaso, num processo orgânico que, repito, encarna e aprisiona o espectador num personagem impotente dentro do filme.

Na verdade, o terceiro terço todo de Sinais é inesquecível. O próprio trecho que precede a cena do porão é matéria bruta do ‘alguém rondando a casa’ citado anteriormente, e do som como lâmina do suspense, pelo qual Shy representa a progressão dos invasores entrando no lugar. É também no som que a simples presença do monitorador de bebês como indicador de proximidade de perigo traz boas lembranças de Silent Hill (o game) e aquele ruído aterrorizante do radinho. Aliás, o filme do Christopher Gans só não deu certo pela ausência do elemento.

Sou do bloco do eu sozinho que considera Sinais um dos maiores suspenses de todos os tempos. É um dos poucos filmes que conseguem me prender pelos ombros, me arrastar e me mergulhar completamente no seu universo, atingindo aquele efeito limite, o ponto mais alto até onde o cinema pode chegar, a justificativa mais sintética para a existência desta arte audiovisual teoricamente tão limitada no que tange à produção de sensações que fogem à superfície do contato sonoro ou visual: me fazer despencar para dentro de um outro mundo.

4/4

Luis Henrique Boaventura


Top 10 de Terror

Junho 14, 2008

E mais uma resenha de Sexta-Feira 13, em comemoração aos 28 anos do Jason, só no Multiplot!

http://multiplot.wordpress.com/2008/06/14/top-10-de-terror/