Lembrancinha

Março 18, 2008

Escrevo, amor, porque a ânsia das minhas palavras só me permite vomitá-las embebidas no visgo desta tinta, tatuagem que talvez se desfaça no vácuo obscuro da tua memória, mas que estará sempre aqui, dormente, para quando quiseres despertar sabe-se lá o que sentes por mim; e minha voz percorrerá outra vez teus ossos feito corrente elétrica, com a intermitência de elásticos rápidos, mas contidos; de choques sépticos, mas curados; de anzóis acobreados pelo tétano, mas recobertos de antídoto.  

Bem sei que recebi das tuas veias uma dádiva, uma transfusão de macro cólera já escalando propulsante este meu pescoço tomado de assalto por um encordoamento grosso e azulado, trançando, a esta altura, um sustentáculo já desprovido de utilidade. Portanto, acredite quando digo: lhe sou extremamente grato. Não compreendi na época (e me desculpo agora), mas foi tua influência que me salvou. Apenas ela que, ainda dócil, ainda mansa e vagarosa, depositava latência nas minhas lacunas, despertando-me do meu sonho como se iluminasse levemente a penumbra das minhas pálpebras. 

Eu que era um coitado, um pobre instrumento nas tuas mãos. E pra falar a verdade, nas mãos de qualquer outro, bastando que me quisesse. Pois era esta a flor, o fruto, e a semente de toda minha demência e toda minha ganância: que me atravessassem e me calassem a garganta cinco dedos de faca, numa cadência doce, um vício, um feitiço, um timbre inebriante. E que depois, num fôlego comprido, imitasse minha voz e dissesse banhada d’uma entonação entorpecente, àqueles seus parentes e seus amigos, que nosso teto era um templo, um molde; e que éramos feitos um para o outro.  

(Não era o ódio a pedra angular dessa catedral? Não era nossa santa igreja edificada em solo movediço? Não era a base do nosso altar uma estrutura condenada? Não eram, amor, vitrais escarlates no nosso santuário? Não tinha um fundo de veneno na água benta do meu batismo?)  

Não, não seria exagero culpá-lo, mesmo porque, se ele não tivesse aparecido, teríamos evitado muita coisa. 

Mas era este o frágil cordão que nos unia, o colostro fresco que só sorvíamos nos mamilos das horas mais tenras e que nos guarnecia um no outro, amainando a vertente de toda tua incandescência com aragem de pluma, como se assopra e se acalma a carne viva de um machucado. E assim, de repente, rejuntados de uma calcificação terrestre, com nossos corpos exumados de toda empáfia e toda peste que nos comia o cerne, inoculando agora apenas nódoas claras de renovadas esperanças, nos vimos limpos outra vez.

Sim, foi teu amor que te curou. Este zelo extremo, este amor de entrega, de devoção; um louvar fanático e religioso envolvendo cada feixe de cabelos como uma chama que não queima. Este mesmo amor que se tornaria em breve o afluente de todo meu tormento.  

E você bem que suspeitava. Bem que sentia a gradativa ressonância vaga da minha voz, a gravidade do meu rosto ao te responder, a hidrografia do meu pescoço esforçando-se para conter uma súbita eloqüência do que eu mais que tudo queria ter gritado. Foi então que fiz da minha língua, uma barragem, e dos meus lábios, duas comportas, e serragem da minha saliva e da ponta da minha língua uma ponte levadiça, só fechando-se à espera de uma chuva na crescente. 

E eu já não via, ouvia nem sentia mais total e absolutamente nada. Vagava autista, era um sonâmbulo pelos corredores da nossa casa, adivinhando-o pelos cantos. E eu ia remoendo por dentro qual seria a expressão na tua face ao colher nestas linhas os teus pedaços. Que mapa, que teia venal, que enervação ferroviária se espalharia na tua testa ao se descobrir pela primeira vez uma peça seca e inanimada? Que trilhos seriam estes, mais pesados e metálicos, rasgando incontrolados as planícies da tua pele? De que liga mais densa seria esta lâmina, ceifando os matos mais pubescentes da tua terra?

Diverte-me, sinceramente, imaginar-te agora sentada numa daquelas cadeiras velhas de mau gosto, engolindo goles cada vez mais grossos da água morna da tua boca, apertando este gargalo largo, asfixiando esta flor de garganta que apesar de tudo desabrocha exasperada, se enraizando numa goela branca, descolorada do sangue que há de te subir e te entupir a profundidade do molho turvo das tuas lembranças, retirando deste poço uma ou duas coisas, perguntando-se em seguida num denso sopro o que fez, afinal, pra ter tanto me merecido.

Foi um presente, tua maldade. Um embrulho bem vedado, um rijo osso que eu cozinhava. E ninguém diria, amor, que daquele musgo flácido enxertado há tantos anos num rito sacro de paciência, fermentaria secretada, borbulhante, uma espumarada pútrida e iridescente.

(Não era meu rosto esta tua obra-prima inacabada, essa escultura talhada e retalhada de relevos? Não eram minhas retinas queimadas, mergulhadas na luz vulcânica das tuas? Não eram labirintos combustíveis no redemoinho entorpecido das tuas íris? Não eram, amor, feitos de um tecido inflamável estes sangüíneos vestidos das tuas meninas-dos-olhos?) Não era um bicho adormecido essa minha vontade?

Uma tortura deliberada, um deserto na planície inerte da minha língua, resvalando lasciva, feito serpente, pelas rochas arenosas dos meus dentes; abrindo o céu incandescente da minha boca, tocando uma marcha fúnebre na campainha da garganta. E era você no sal incandescido desta língua, compondo de cinzas a força incomparável da minha sede, a mesma sede que desde sempre eu esperei que jorrasse, quase que sem controle, para que a poça da minha água fosse a vertente de uma cascata, e de tão aguçado e de tão seco, meu paladar sentiria seu gosto, seu cheiro; e meus olhos varreriam cores fosforescentes se acendendo na gorda vazão da catarata. Seria só o sombrio percurso de uma geada pra quem conserva ainda virgem a brasina queimadura destas rosetas e destas urtigas que te brotavam pelos poros e te cobriam densamente o corpo, se abrindo nesta floresta, envolta de cogumelos, a flor de uma planta carnívora.

 Desculpe, amor, se não contenho a força da minha represa. Só espero que te invada, que você seja inteira consumida na tempestade ártica destas linhas. Mas não que te afogue, apenas que te rompa as pálpebras e que te faça perceber o quanto útil me foram os ensaios do teu desprezo e as descargas do teu sarcasmo.  

Devo a ti minha liberdade, e só peço que aceite como um sinal de toda minha gratidão este papel humilde, mas sincero. Guarde-o bem. Não há, nestas palavras, o menor sinal de inveja, de ódio, de rancor, de ciúme, de remorso. Aliás, percebo agora, isto sequer é um comunicado. É apenas algo para que me tenhas contigo, enquanto eu, permitindo-me ao ineditismo da ambição, levo de lembrança o nosso filho. 

(reescrito)


Cus

Novembro 19, 2007

-Sabe, sempre penso sobre os cus.

-Hein?

-Os cus, sempre penso neles.

-Quais?

-Não, nos cus em geral.

-Ah, sim…

-Você não?

-O que?

-Não pensa nos cus?

-Sim, sim, o tempo todo…

-Sério?

-Claro que não.

-Hm… Não vai pedir por que?

-Por que o que?

-Por que penso neles?

-Paga mais uma que eu peço…

Estavam naquele país sem lei entre as duas e as três da manhã, dobrando a esquina depois que os copos passam da primeira casa decimal. Bebiam o solvente de algum quadro de Salvador Dali, num daqueles bares que, se um dia existiram, foram engolidos pelo samba ruim e a cerveja sem álcool. Mas bebiam ouvindo música. Uma orquestra de vozes sem dono, ranger de cadeiras, discussões de baralho e o estalo das bolas de sinuca. Era algo como o infinito cósmico, em que se torna impossível imaginar o que ou quem talvez exista por trás daquelas paredes. Poderiam correr o quanto quisessem, jamais chegariam à calçada. Até por que, há muito a porta fora apagada pela neblina dos cigarros.

 -Então… – ouviu-se o pipocar de cachoeira da cevada desaguando no copo – Por que pensa sobre eles?

-Acho um tanto injusta essa óptica sobre o cu. É preconceito, por exemplo, mandar tomar no cu, ou chamar alguém de cu, cuzão, com essa conotação pejorativa.

-Preconceito com os cus?

-Isso. Sem o cu nós explodiríamos, ou vomitaríamos merda.

-Ou suaríamos merda…

-Esse é o ponto.

-Mas aí seria uma diarréia…

-Que seja… A questão é que dependemos demais do cu para discriminá-lo desta forma.

-Mas o cu é nojento.

-Aí depende. Você urina pelo pênis e não o considera nojento.

-Considero sim.

-Considera?

-Mas claro.

-Você tem nojo do seu próprio pênis?

-Meu cigarro acabou.

-Você não pega no seu pênis quando vai ao banheiro?

-Tem cigarro?-Você por acaso enrola papel higiênico nele quando vai…

-Amigo! Um maço sem filtro, por favor.

O dono do bar era daqueles humanóides grossos que partem a escala evolutiva e a devoram em pedaços, com uma mandíbula bem desenvolvida. Havia se perdido em algum lugar entre o homo sapiens e qualquer outra coisa. Passou a vida desaprendendo. Desaprendeu a sorrir, desaprendeu a conversar, desaprendeu a fazer a barba, desaprendeu todo tipo de futilidade. Mas era feliz. Servia por instinto e se bastava.

 -Como eu ia dizendo, essa visão sobre o cu me preocupa. Deve ser coisa do homem antigo, um preconceito cravado pelo machismo. Com aquela necessidade tola de se provar homem o tempo todo, difamou-se o cu. Virou palavra e objeto proibido.

-O cu não é objeto.

-Você pode dá-lo, perdê-lo… claro que é.

O outro só assentia ironicamente com a cabeça, franzia a testa e baforava para engordar a nuvem de fumaça.

-Sempre tivemos medo do cu, desde os primórdios, algo cultivado na antiguidade e passado de herança ao homem moderno ocidental. É por isso que ele fica exatamente do outro lado do nosso corpo, coisa da evolução, tudo para assegurar que um homem não desse de cara com seu cu. Muitos devem ter morrido disso.

-Amigo! Amendoim.

-O homem sempre teve medo de provar da contramão e acabar gostando.

-Isso é bobagem.

-Por quê?

-Eu não preciso fazer certas coisas pra saber que não gosto.

-Mas como você sabe?

-Sabendo, ué. Por que, você não sabe?

-Só estou dizendo que não há como ter certeza.

-Você nunca foi crucificado, mas sabe que isso não é bom.

-Mas aí você já nivelou o uso alternativo do cu com qualquer método medieval.

-É exatamente minha visão sobre isso.

-Quer dizer que você teria medo de ser crucificado?

-Claro.

-E que também teria medo de dar o cu.

-Acho que sim.

-Caso encerrado.

-O que?

-Você teme o cu. Mais do que tudo na vida. Eu disse, é o grande problema, o medo distorceu o cu.

-Filho da mãe.

-Que foi?

-Acabo de imaginar um cu distorcido. Pega esse amendoim que eu não quero mais.

 Disse empurrando a bandejinha e apagando o cigarro na quina da mesa, enquanto o outro olhava em volta.

-Nesse mesmo lugar, se você fizer uma pesquisa, verá que essa associação escatológica à figura do cu provém do medo que ele desperta.

-Um senso sobre o cu?

-É.

-E quais seriam as perguntas?

-Hm, algo como “qual sua opinião sobre o cu?”, ou “você tem receio em utilizar seu cu de forma pouco ortodoxa?”, “cite três pontos fortes e três pontos fracos sobre o cu”…

-É bem provável que este seja o único lugar em que sua pesquisa daria certo…

 Breve silêncio. Um sorria e o outro o fitava fixamente com a cabeça apoiada sobre uma das mãos.

-Você não tá me levando a sério.

-Claro que tô.-

Tá nada.

-Tô sim.

-Então diga algo.

-O que?

-Qual sua opinião sobre isso tudo?

-Sinceramente?

-Não, minta pra mim. Claro que é pra ser sincero!

-Então tá, foi você quem pediu.

-Diga.

-Posso?

-Tô esperando.

-Pois bem, o cu não existe.

-Hein?

-Sei que pode ser um choque pra você, mas é a verdade, amigo. O-cu-não-existe.

-Prove. – batendo e se afastando da mesa.

-O cu, por natureza, é um buraco. Um vazio. Não há nada ali. O cu, admitindo sua existência, seria o espaço oco entre as paredes internas e o final do intestino. Ele nada mais é que o lugar onde o intestino perde o nome e se mitifica dessa aura que você acaba de descrever. Você, na verdade, superestima o cu.

O outro engoliu a saliva, ergueu a mão e preparou um dedo inquisidor.

-Seu ateu!

-Ahn?

-Homem de pouca fé, você não crê no cu.

-Era disso que eu estava falando, agora você elevou o cu à categoria de um deus pagão.

-O que você disse?

-Que você endeusou o cu.

-Hm, isso é bom…

-Não.

-Pense bem, afinal, cus são redondos, a forma geométrica mais perfeita que existe. Desde sempre a natureza tenta se igualar ao cu, clonando sua silhueta.

-Mas este não é o cu, é apenas a entrada…

-Saída.

-… saída do cu. Quer dizer, do vácuo comumente chamado de cu…

-Mas, afinal, qual o problema de o cu ser um espaço vazio?-Nenhum, desde que você pare de se importar com isso. Veja bem, você mesmo transformou o cu em uma entidade abstrata ao citá-lo como um deus, concordando com sua inexistência material.

 Outro breve silêncio.

-Você acha que o cu só existe na minha cabeça?

-Acho. O cu é coisa da tua cabeça. Você que o torna real.

-A matrix do cu?

-A matrix do cu.

Novo silêncio, mas não breve, dessa vez. Um se calou em respeito ao amigo, um minuto pela morte do cu. Já o outro tentava assimilar e se acostumar com a nova realidade. Com o vazio que o cu deixou (e que como acabara de descobrir, sempre foi). Percebendo a fragilidade do homem, resolveu intervir.

-Amigo! Mais uma aqui!… Sei como se sente, como é difícil no começo. Mas isso é um processo, você se acostuma.

-É…

-Vamos brindar, em homenagem ao cu, e mudar de assunto.

-Vamos. Espere… Cadê meu copo?

-Ahn?

-Meu copo. Perdi meu copo.

-Pede outro.

-Não.

-Por que não?

-Porque quero meu copo.

-Por quê?

-Mas que coisa! Só quero tomar no meu copo!

-Ah, sério, vai tomar cu…


Alvorada

Novembro 19, 2007

 

As pinhas e as nozes do rastilho estreito quase conversavam enquanto ela caminhava, trincando e estalando conforme seus passos de menina desfilavam entre as árvores e plantações detrás da casa grande. Cantava a melodia que aprendera com a mãe, aquela velha ruminante, ainda nas fronhas e forros de palha do berço de forno dos seus braços. E cantava sorrindo, brincando nos galhos. Que não eram galhos, eram pencas de avelãs, amêndoas e açaí. E o sol não era sol, era suco, era calda de caju, pingando e escorrendo por entre as folhas das árvores, besuntando-na de pistache, cana e caramelo; encardindo de outono sua pele e seus olhos tingidos de melado. Seguia meio pulando, meio dançando, meia de lado. Polvilhando no ar o açúcar mascavo daquela terra ensopada pelo sol. Parando, reparando nos talhos dos troncos, nas vigas, vitrais, catedrais de damasco. Nas pedras, cascalhos, castanhas, cascatas de araçá. E nos sinos, nos guizos daqueles pássaros. Ouvindo os curiós, os cardeais, patativas de cajá. Rouxinóis, verdilhões, pintassilgos de anis e alcaçuz. E os azulões, sabiás de amora preta, pardais, Joãos-de-barro, de abacate, de geléia… Joãos-de-chocolate, de azaléia e violeta.

Mas estancou, simplesmente, fincando como raízes seus pés no chão, querendo por milagre se fazer parte daquela terra, convertendo seu sangue em seiva e seus cabelos em folhas secas, para que fossem levadas ao outro lado da fazenda, e ela poderia voar, e voar, e voar para todos os lugares, sem que ninguém a percebesse, sem que ninguém a desmontasse, como este triste e pálido lenhador sempre fizera. Desbotado pela escuridão dos móveis frios da casa grande, a aguardava, sem qualquer paciência, o moleque azedo do senhor. Fechou os olhos e esperou a surra de sempre, apenas confiou se fazer brinquedo outra vez, se fazer pião, carriola de madeira. Mas desta vez foi diferente, e entre tapas e arranhões, ele de repente a beijava e a sugava como uma fruta explodindo de água doce. E a mordia, invadia de carvalho e de nogueira, talhando o alburno vivo do seu ventre e marcando os nós do seu cerne já destrinchado feito um leque, apagando e desfazendo os anelados ainda breves do seu tronco. Cortando e derrubando, e encharcando-a de seiva bruta, enxurrando caixeta e canjerana, infestada, putrefata de gorgulho.

Foi deixada lá mesmo, atirada à diversão das brocas e carunchos. Chorava até ficar com sede, e tinha medo de se mexer, medo de que algo ou uma parte dela se desprendesse do seu corpo. Vigiada pelas árvores e pelos frutos daquele caminho seco; queimada, atravessada, incendiada pela parda luz do sol. Sentia a terra, primeiro, como terra. Depois, como areia fina abrindo caminho virgem nos seus cortes e, finalmente, vidro quebrado. Lâmina, navalha, estilhaço. Ardia por dentro, e de um modo que não a permitia gritar, nem respirar direito. Sentiu a febre do seu sangue deslizante entre suas pernas regar o chão, e pensou por um instante que talvez nascessem folhas de outra cor na próxima primavera. E assim, convidada por um devaneio solto, a dor foi indo embora. Não sabia o que tinha feito, mas já não sentia mais nenhuma fenda, nenhuma chaga; e um sono calmo foi chegando. Pensou em dormir um pouco, e decidiu com o que sonhar. Suas lágrimas fecundariam a terra, brotariam cerejas e groselhas, brotariam jarros de água fresca e travesseiros de algodão doce. Seus olhos jorrariam de esmeralda e serpentina, e suas costas seriam uma cama macia. Sua boca, uma concha profunda. Sua saliva teria gosto de hortelã e seus cabelos seriam longas e intermináveis tiras de camurça.

Cobriu os olhos já espalhando as largas asas, e planando pela fazenda, sentindo a ocarina ruidosa do vento entrando e fazendo casa nos seus poros, e uma chuva de mel de pitanga que caía matando a sede da sua pele, inchando e transbordando nas dobras dos seus joelhos e entre os vincos do seus dedos. Cantando e flutuando sobre o telhado da casa grande, e lentamente, desmanchando. Dissolvendo-se, misturando-se, esquecendo-se com a brisa, como se sempre tivesse feito parte daquele lugar, e não notara, e não lembrasse. Como se tivesse, numa destas mudas castras da lavoura, desprendido-se da aurora e caído direto no crepúsculo d’um casulo por vezes lisérgico, por outras letárgico, mas sempre entremeado de fios, de linhas, de nódulos, de novelos de catarse. E ela, linda. Lépida, liberta (quase como se importasse), já chovia, trovoava, ventava, e ensolarava os diversos acres da amplitude plana do seu corpo. Mimando com pena e um carinho materno o menino amargo que chorava, sem motivo, debruçado, de certo sobre algum passarinho, entre as árvores detrás da casa.


A Sepultura

Novembro 19, 2007

 

“Há três dias lacrada como um enxerto de carne nessa banheira branca, com minha pele virando louça, meus cabelos desabrochando em buquês de esponjas, e a água da minha boca fermentando, e condensando, e amaciando minha língua já tingida pelo anil da espuma. Me diluindo nessa água, me despedindo desse mundo, me desfazendo e escorrendo pelo ralo. Reparo nos cantos, nos nós do forro no teto, nessas paredes que me viram crescer. Estas vigas, pacientes cortinas de cimento, estas folhas de concreto, as únicas a quem me confessei, as únicas a quem me entreguei de braços abertos, as únicas que sempre mereceram mais de mim, e por isso mesmo, protegidas pela minha ausência. Tirando ele…”.

 

Ela movia seus lábios como se queimassem ao tocarem um no outro. Atirada à dimensão vazia daquele grande banheiro, daquela máquina de ecos. Há três dias. Ou pouco mais de dois, na verdade… Olhava pela janela de vez em quando, ouvia os carros, os vizinhos… Até a campainha tocou algumas vezes. Segurava um velho secador nas mãos, e Deus sabia como era pesado, como era insuportável. Ligava por alguns instantes, e desligava. E cada vez que ligava, se punia, ensurdecendo-se com o som amplificado enquanto se perdia na profundidade pegajosa e traiçoeira das suas lembranças. Mergulhando-se, nadando-se, bebendo-se. Afogando-se de si mesma, e rezando, rezando baixo para que fosse de uma vez vencida pelo peso daquele objeto, e que o deixasse cair, assim, por acaso, enquanto, distraída, contando os nós na madeira do teto, se exorcizasse e explodisse, arrebentando-se em mil pedaços para que nunca mais se pudessem juntar. Porque é como se mata algo ruim.

 

 

 “Que de todo modo, era quem merecia, quem verdadeiramente merecia minha presença nociva, quem deveria ter dividido o mesmo gás tóxico dos meus pulmões. Era ele, ninguém mais, quem deveria ter sido retalhado pelas cerdas encravadas dos meus dedos, invadido pelo veneno oleoso da minha saliva, e aprisionado em mim, para sempre, e eu o morderia, e o mastigaria, e o engoliria. E ele seria meu, seria eu, e eu, ele. E naufragaríamos juntos. Porque foi ele quem me confundiu, ele quem me mostrou o limite transparente, a proximidade milimétrica dos dois extremos. E eu quem os pariu, dois irmãos gêmeos, e a cada momento eu era conduzida por um deles, e pelos dois ao mesmo tempo. Logo já não distinguia quando o amava e quando queria vê-lo despedaçado, porque no fundo, sempre foram exatamente a mesma coisa”.

 

 

Não sabia precisamente quando o havia perdido, nem quando o havia encontrado, assim como não podia explicar a diferença entre as duas coisas. Quando encontrando-o significava perder-se dentro dele, navegando na correnteza feroz daqueles beijos, despencando da cascata dos seus corpos para desaguar no oceano de um único corpo. E era quando matavam a sede um no outro. O único momento em que se entendiam, em que falavam a mesma língua, quando as palavras perdiam o sentido. Quando podiam cavar um no outro, e se enterrarem um no outro, se plantarem um no outro, e brotarem um do outro. Era tudo que ela mais gostava, sempre renascendo com uma nova parte dele, nela, tornando-se mais parecida com ele e mais diferente de si mesma. Porque era tudo o que sempre quis. Fugir dela mesma, sair correndo e se esconder onde nunca mais pudesse se encontrar.

 

 

 “E foi por isso que ele nunca me perdoou, por não decidir se o queria inteiro ou se partido em pacotes para a viagem. Porque ele sabia que da sua língua só me importava o gosto que tinha. E foi quando o perdi. Quando já não me bastava o toque, a palidez limitada da superfície, e meu corpo já sofria a abstinência do seu cheiro, e toda a sua entrega já não me era o bastante. Quando todos os movimentos voluntários dos seus músculos me imploravam por prisão, por cela, por decisão à força, e apenas eu seria a chave do seu cadeado. Libertando-se, mal sabe ele, quebrou todas as barras que me sustentavam”.

 

 

E foi exatamente assim, seguido de um grito que a arrancava de dentro dela, que ligou o secador pela última vez. Ligou e puxou com força, cansada da sua própria voz rebatendo nos azulejos, tentando agora os estilhaçar com a vibração serrilhada dos seus berros, daqueles brados eletrificados, iluminados, disparados da sua garganta em direção ao teto, como se quisesse que o teto a engolisse, e desabasse, e a digerisse entre os entulhos, para que não sobrasse nada, absolutamente nada. Gritou tudo que podia até que o fôlego cessasse. E os gritos pararam, para que enfim o silêncio voltasse a inundar a amplitude de vácuo daquelas quatro paredes claras, as primeiras coisas que seus olhos viram ao se reabrirem, e perceberem que ao puxar o secador, a flecha da tomada havia vindo junto. E ela riu. Foi rindo que gastou o primeiro fôlego do resto da sua vida, aquele que pensou nunca poder respirar. Gargalhou, e o perdoou por o odiar, perdoando-a também. Pois ela bem sabia que não poderia exigir nada de ninguém.

 

 

Decidiu recomeçar, decidiu apoiar o peso do seu corpo sobre os braços e levantar, estranhando a volta do sopro que entrava pela janela e tocava sua pele, já voltando a ser pele outra vez, abandonando a louça fria da velha banheira com a água que viajaria pelo ralo sem ela, desta vez. E foi ao dar o primeiro passo para fora da banheira que suas pernas formigaram, e a abandonaram, e a derrubaram de cabeça nos azulejos. Sem força, sem gritos, sem liberdade. Apenas o retorno à prisão do corpo, agora prisão da mente, encaixotada numa cama na maldição da companhia eterna da pessoa que mais odiava no mundo. E das paredes, suas paredes de estimação.

 

 

Lá fora, o som dos carros e das crianças abafava o trincar dos azulejos. E ao pé dos dois degraus da portinha da frente, aguardavam-na há alguns dias umas dúzias de rosas murchas, adormecidas e cansadas pela espera tardia da sua dona, prenunciando agora, por ironia, o enterro de uma alma. Quando quase livre, quase na superfície, viu-se outra vez soterrada por sete palmos de carne, de ossos e de sangue. 


Nota de Rodapé

Novembro 19, 2007

Descia a rua sem sentir, chutando pedras e desviando fendas com os olhos perdidos dentro dos bolsos. Forçando os galhos tortos brotados anômalos do seu tronco com força contra o chão, aliviando o enjôo amargo que escalava a pé-de-cabra as nuances acidentadas da sua garganta, ardendo na raiz da sua língua o gosto ácido de anteontem. Trazia no céu da boca os cheiros sobreviventes daquela noite, enrolada e tragada para dentro dele, prestes a rasgar-lhe a carne e se libertar, derramando púrpura naquelas fendas e matando a sede daquela rua.

 

Cada passo reabria e cavava fundo as feridas quentes da sua cabeça, anestesiadas pelo fluxo lubrificante da sua saliva de espuma, de bolhas e de cristais, dissolvendo o cobre opaco dos tijolos que respirava. Desconstruindo muretas e varandas, descondensando o sopro náufrago, o adeus nocivo e tártaro daquela manhã de domingo, submergindo atraída pelo olho do buraco, lá embaixo, no final do vale largo atravessado pela ruazinha.

E também ele, mergulhando cego na profundidade vertical, no vértice lateral da esquina que ascendia sobre seus olhos. Bem lá do fundo, onde brotava o caule áspero daquela rua, onde o asfalto tubérculo emergia dando frutos. Lá embaixo, na profusão de sombras, na escuridão difusa, onde o sol passava de costas, onde as luzes acesas fugiam depressa para o alto da colina. Lá, em mais um daqueles tantos abrigos talhados nas pedras, nos muros, nas bordas, nas rochas daquela cratera. Era lá que o próximo copo o esperava.

A umidade da esquina vertia mais forte a cada metro, substituindo o ar pelos vapores dos fermentados que lhe chamavam, quase o encharcando, quase o afogando, já bebendo do vazio com suas guelras acostumadas às profundezas lúbricas daquele bar. Embriagado pela proximidade e a expectativa do exorcismo daquele gole, apertou o passo. E tropeçou. E escorregou. E caiu. E rolou abaixo, parando nas escadas do portão.

Do portal para a redenção. Da rendição ao desespero. Do desenterro que lhe espera. Da esfera que lhe aguarda. Da guarda amarga que o encerra. Da serra larga que o atora. Da tora lisa que o distrai. Detrás das pedras que lhe quebram. De quebra as quinas que lhe rasgam. Do rasgo o sangue que lhe escorre. Que corre ágil dos seus braços. Que abraça as curvas das suas costas. E a crosta líquida que o percorre. E o percurso de dor que o atravessa. Trazendo a morte que o alastra. Arrastando a vida que lhe resta.  

Descia a rua em direção ao bar na manhã de domingo quando tropeçou, caiu e morreu.


O Vestido

Novembro 19, 2007

Foi se arrastando pelas lâminas de um calçamento estrábico que sentiu, juntos, cânfora e madeira de um vestido que se aproximava, deslizando na varredura estreita costurada de ciprestes daquela rua escura, cortada de azurras e pregada de celestes. Suspeita ele de botões, feixes de rendas e espartilhos encarnados. Desdobrados de babados, daqueles tecidos frouxos, inflamáveis e inflamados, despidos, travestidos e embebidos de pecado.

Foi quando ele passou, descompassando a melodia matemática dos seus passos com uma bateria de saltos altos. E logo serpenteando, levantando vôo sob o assovio profano de um minuano maldito sussurrando ordens censuráveis em seus ouvidos. E soprava preciso, lambendo de baixo pra cima as barras brancas daquele vestido. Beijava um beijo seco, de boca torta, amortecida, de lábios entalhados e língua morta sem saliva, rastreando as dobras vivas daqueles pernas recheadas de carmim. E foi assim, leve, mas intenso, despertado pelo vento que levava e revelava aos pedaços e pedaços de carne fresca colorada. Carne ardendo, pedindo pra ser decorada com suas presas inchadas de veneno.

Antes dócil, pequeno, quase feminino. Agora fóssil, gigantesco, assassino. Primata encouraçado de desejos adormecidos, reprimidos de menino, de impulsos pulsantes, gravados e agravados por amantes esquecidos. E foi picante, em todos os sentidos. Se esgueirando nas pontas dos seus pés de espinho, contendo sozinho aquela fúria inconstante, mas fraco, vencido em um instante por um magnetismo letal, atraído instintivo pela pele bronze de metal que se escondia provocante debaixo do vestido.

Saltou direto no pescoço, descobrindo sob aquela crista efervescente uma lava escura e alaranjada de viço podre incandescente. Tragando na vertente daquele caldo combustível, afogando-se de repente em acetona e vaselina, gasolina e óleo diesel, desmanchando a graxa quente que derretia parafina nos vincos pretos dos seus dentes.

Percorreu a superfície lisa da sua presa com um banho de língua encharcado, como se sorvesse aquele vinho tinto de mesa num copo de cristal dourado, cristal suado de orvalho vermelho. Extraindo-o como suco fresco dos seus cabelos. Daquela flor, daquela fruta carnívora, um licor de sementes batidas, de odor carnal, de uma polpa tropical e colorida, mastigada já sem vida na sobremesa da sua caça. Matando a sede naquela taça, naquela fonte de água rasa que brotava direto das veias daquela terra, das covas e valetas daquela horta, onde plantava aos pares o gasto e manchado esmalte dos seus molares.

E ficou lá, com o olhar perdido por um momento, admirando com um orgulho quase materno o que acabara de parir. Foi quando tocou a barra dura tingida do tecido, tentando, inútil, fazê-lo outra vez virar-se ao vento, ou pelo menos aos movimentos rígidos dos seus dedos. Procurou outra vez beber daquele leite, agora frio, agora azedo, uma nata, uma pasta coalhada, escurecida, de um toque ácido que lhe queimava o paladar.

Assustado, e ameaçando vomitar, saiu correndo, deixando nas pedras o rastro liso dos seus sapatos, tocando-as como teclas de um piano arcaico, executando a batida fria que acabara de compor com o compasso agora trágico dos seus passos. Deixando para trás aquela rua ainda escura, de varredura ainda estreita, de calçamento ainda estrábico, mas que agora, concentrada de sentido fálico, recortada de carne viva e impregnada de um cheiro tórrido, mascava e engolia a pureza extinta do mais cru e primário amor. Daquela rua agora bordada de bordô.


Arquiteto

Novembro 19, 2007

 

Rasteiro maleva, costeava a borda da taça com um olhar aceso, marcado, algo próximo de uma devoção fanática e devassa. Uma religião, culto orado de joelhos enterrados à beira do móvel talhado com a matéria-prima das canções que só ferem os ouvidos mais escuros e dilatados pela correnteza de sombras que desemboca na madrugada.

 

Lembrou-se, súbito, das tardes inchadas pelo suco turvo inocente que vertia das rodas dos carrinhos de ferro, rasgando o tapete da sala e arrastando consigo os minutos compridos que antecediam a tão aguardada hora da liberdade criativa, quando fazia amizade fácil com as paredes trincadas que o observaram o dia todo. Era ali, enquadrado entre as paredes tagarelas da infância, que construía seu mundo, sua cidade, sua estrada. Era uma caixa de leite vazia, uma ponta de brócolis, a haste do lápis mordido, os pés dos balcões… Ali, filtrados pelas retinas do garoto como árvores, arranha-céus, postes, estádios… Onde o andar mais alto do deus cimentado-metálico estava à mercê dos impulsos sádicos de seus dedos. Jamais teria tal poder de volta.

 

Atravessou a meia-noite interrogando aquele copo, percebendo então, só agora, com os oboés das rodas carreteiras arranhando a distante auto-estrada, que toda tortura que partia dele, voltava para ele. O silêncio é um pássaro bicudo cutucando impertinente sua cabeça, espantado pelas vozes coralistas das carretas. Saiu de perto da janela e refez o caminho que ele mesmo abrira quando criança. Da varanda grande, passando pelo quarto escuro da empregada, atravessando a amplitude cavernosa da sala de jantares, da sala de festas, encontrando, enfim, o berço das suas lembranças, o ninho das suas saudades, a planta de toda riqueza perdida: a cozinha. E ali, como ritual que o batizava com o nascimento da morte, o começo do fim, o outro lado da colina, agachou-se sob a mesa de patas prateadas, encilhada com a toalha de frutas bordadas da infância, como lembrava tão bem, revivendo, olhando de baixo pra cima o menino gigante que fora.

 

 

Justo agora, na aurora da sua terceira década de vida, com tudo e todos a seus pés, com a juventude física ainda intacta, com todo tipo de luxúrias escarlates, coloradas, roxas e violáceas acumuladas pelos seus sonhos adolescentes, finalmente implorando para serem consumidas, ele lembra e percebe que é tudo o que lhe espera, tudo a que terá que se abaixar para alcançar. E descerá veloz, pois verá que quando tudo estiver provado, todas as iguarias experimentadas e reconhecidas por sua língua destrinchada de sulcos como terra seca, ela ficará limitada a uma função primária desprovida de prazer.

 Era o que acontecia ao fim da tarde. Quando cada caixa de leite estava no seu lugar, cada nuance da micro-estrada, cada limite imaginário delineado, e tudo estava pronto para ser desfrutado, não havia desfrute. E o menino, garoto arquiteto, que passara as horas mais claras do seu dia trabalhando incansável para construir um monumento para os olhos, para refletir no piso daquela casa onde o inverno nunca passava, desenrola o tapete e derruba tudo ao perceber que não havia mais nada para ser feito.


O de sempre

Novembro 19, 2007

 

Atravessa a rua debaixo de uma chuva torrencial. Como um peixe, rasgando a correnteza brava fisgado pelo anzol brilhante do velho letreiro de néon. Entra num bar qualquer, num bar que nunca havia entrado na vida. “O de sempre”, diz ele, enquanto se livrava da água como um cachorro molhado. O barman nunca o tinha visto, mas percebeu a total falta de senso do homem. Serviu um scotch duplo. Não diria nada. Em primeiro lugar, porque não queria um conflito em vão. Depois, porque não tinha a menor inclinação a qualquer tipo de caridade. Já que se nem percebera que aquele não era o lugar que freqüentava, certamente não perceberia ou sequer sentiria o gosto da bebida. Talvez, como qualquer outro, ao menos uma vez na vida, precisasse apenas de algo forte para queimar sua garganta. Para dar-lhe a certeza de que, apesar de todas as fortes evidências gritando o contrário, permanecia vivo. Nunca valeu a pena ao barman se interpor entre um homem e seu copo. Mas não… aquele levou a boca à bebida, e não o contrário. Parecia querer mergulhar nela, prevendo exatamente o sabor redentor que o esperava. No entanto, sentiu o aroma clássico, a suavidade decepcionante de um uísque impotente frente àquela língua calejada de destilados. Sentiu que não era o que bebia sempre, nem o que pagaria para beber. Se tivesse tal intenção, de qualquer modo… Olhou para o chão montado de parquê escuro, coberto pelo grosso tapete de poeira e bitucas de cigarro. Deu uma boa olhada naqueles rostos inéditos que se camuflavam entre as sombras plantadas pelas altas horas de um domingo à noite, no terreno árido das mesinhas de fundo. Respirou aquele ar diferente, carregado de fumaça nacional e nicotina nativa, quase edificante, quase estranha, tão densa que poderia ser capaz de produzir paladar ao invés de aroma. Olhou para um rádio antigo que conversava em letargia com o acaso, escondido no balcão alto da esquerda, junto aos vidros de pepino, preenchendo cada canto, cada fresta de parede e de telhado com um silêncio de sentidos e um carnaval de estática. Havia pegado a primeira e não a segunda à esquerda depois da igreja, provavelmente. Enfim percebeu, sem que precisasse de qualquer palavra do barman. Sabia beber, mas não era capaz de andar, pensar ou sentir sozinho. Quase puxou o revólver ali mesmo…

 “Por que o senhor não se senta? Senta aí, pega um banco”. Bastaram alguns segundos para que o barman se arrependesse. Mal sabia que salvara a vida do homem. Ou que a condenara por completo… Ele respondeu com um olhar para o teto avermelhado, com as mãos que se desprendiam do gatilho frígido do revólver e se revelavam sobre os bolsos da jaqueta de couro de uma década de idade. Alcançou um daqueles banquinhos duros e sentou. Arremessando seus braços cansados sobre balcão, e erguendo com dificuldade os olhos em direção ao barman, pediu absinto. O tal do barman aparentava uns sessenta, sessenta e cinco anos. Não devia ter mais de cinqüenta, mas estavam estampadas nas linhas fortes do seu rosto centenas e centenas de noites de domingo como aquela. Cada uma delas o envelhecia uma semana. O homem, por sua vez, parecia já estar morto, e a garrafa de absinto era provavelmente anterior aos dois. Envolta pelo manto de uma poeira grossa que cobria o verde intenso da bebida. A criptonita de qualquer homem.

 Ela é virada de vagar, como se vira uma mulher com cuidado para não acordá-la. As primeiras gotas fogem pelo lado torno da garrafa. Podia-se vê-la explodindo ao atingir o fundo do copo, iluminava quase o bar inteiro, acompanhada pelos trovões distantes da tempestade que se afastava. O barman nem havia terminado de enchê-lo quando o homem pegou-o de repente do balcão. Olhou a bebida fixamente. Seduzindo-a, conquistando-a, bebendo-a primeiro com olhos, para só depois tragá-la sem culpa alguma. Nem chegou a tocar o copo com os lábios, jogou o verde fósforo corrosivo direto na garganta, cortada, aberta pela ardência furiosa que o libertava. Era como se um desejo masoquista retido e uma pequena parte de sadismo tivessem sido derretidos, destilados e dissolvidos no fundo daquele copo. Como ele mesmo. Sobrado no fundo do copo, olhando para a cara assustada do barman de baixo para cima, como se fosse disparar algo ou ele próprio contra alguém. E talvez fosse mesmo, caso um tal de Roberto não tivesse resolvido entrar entre os dois no meio da noite…

 “Meia-noite em ponto! Eu sou Roberto Cavalcante e este é o Madrugada Ao Vivo. Chove muito lá fora…”. “Desculpe, já passa da meia-noite, e eu preciso fechar o bar”, diz o barman, fingindo constrangimento, aproveitando a deixa do rádio que em vinte anos esquecido entre os vidros de pepino finalmente servira para alguma coisa. “Mas pode beber essa aí, eu vou fechando as janelas e dando boa noite ao pessoal”. Os homens ao fundo do bar, que compunham “o pessoal”, amigos do barman pela mera ocasião de precisarem de um lugar onde pudessem deixar suas vidas do lado de fora, não passavam de cinco ou seis. Não dava pra saber ao certo, já que uns pareciam homens, outros, apenas sombras de homens. Do que foram, e do que poderiam ter sido. Ele sorve a bebida lentamente, absorvendo-a como uma esponja, enquanto os observa sentados ao fundo com um olhar que esconde certa familiaridade. Parecia, pela ironia do engano, ter enfim encontrado um lugar que poderia ter sido feito dele mesmo. Cada tijolo, cada peça de parquê, exalava seu cheiro.

 Os outros iam afastando cadeiras e lançando moedas sujas às velhas mesinhas condenadas pela umidade. O barman já contornava o balcão para o lado de dentro cobrando o homem… “São quatro pelo uísque e cinco pelo absinto”. Mas ele fixa seus olhos no balcão. Parecia tê-los perdido por ali. Demora alguns segundos e responde. “Preciso contar uma coisa”. Os pés do barman o carregam dois passos atrás, enquanto as mãos ainda se apoiavam com força no balcão. “Eu vou matar um cara”. A resposta do outro foi imediata. Talvez nem fosse uma resposta, talvez estivesse apenas enganando a si mesmo para encobrir com palavras repetidas o que acabara de ouvir. “Olha, eu não quero saber. Por favor, são quatro pelo uísque e cinco pelo absinto. E vamos logo que eu tenho que fechar o bar…”. Mas ele, de repente, não ouvia mais. “Eu nem sabia que era capaz de sentir tanto ódio”. Deixou escapar uma risada no final da frase. Algo no limite entre o sarcasmo do desespero e um possível sadismo, uma satisfação antecipada pelo que estava prestes a fazer. O barman já tateava entre as garrafas de baixo do balcão por um velho 38 nunca usado…

 “Ele quer que eu faça uma coisa, mas eu não vou… Não era pra eu estar aqui, eu nem sei o que estou fazendo aqui. Foi ele, ele quem me pôs aqui”. O Barman já tinha ouvido histórias, mas depois dos primeiros anos, não prestava mais atenção. Poderia prever o final de cada uma delas pela primeira frase, e todas, sem exceção, terminavam no fundo de um de seus copos. Mas teve a curiosidade fisgada desta vez, depois de tanto tempo. Esqueceu do revólver debaixo do balcão, e deixou que ele falasse… “Aquele sádico maldito… Quem ele pensa que é? Acha que pode controlar tudo, acha que sabe tudo sobre mim, tudo sobre você… Ele não sabe NADA!”, gritara ele pela primeira vez. Mas o barman não percebeu, estava mais interessado no sentido daquelas palavras pronunciadas sob efeito anestésico que no volume que de repente rivalizava com Roberto Cavalcante.

 “Era pra eu me matar, aqui, na sua frente… Mas seria assassinato, não? Ele estaria me matando”. Visivelmente bêbado, já não distinguia muito bem o que falava. “Eu não estou bêbado!”. Sim, está. “Desgraçado!”. Cala a boca. “Eu vou te matar!”. Ele salta do banco e tenta puxar o revólver, que inexplicavelmente, fica preso no bolso da jaqueta ao mesmo tempo em que o tambor se abre, derrubando todas as balas. O Barman o observa atônito, e percebe que o melhor é acabar com o sofrimento de um pobre homem atormentado e sem expectativas… “Não!” – diz o coitado, numa tentativa vã de intervenção – “Ele não pode te controlar, não o ouça!”. O barman fica inerte por alguns segundos. Certamente imaginando de que modo poderia mata-lo de forma rápida e sem sofrimento. “Não, eu nunca matei ninguém”, diz o barman, que a propósito, fora assassino de aluguel na sua juventude. “É mentira! E eu tenho quarenta e cinco, posso parecer mais velho por causa do bigode”. Você não tem bigode. “Claro que tenho”. Eu não disse que tinha.

 “Sim, tem! Eu estou na frente dele e digo que ele tem! Você nem sabe o nome dele, nem o meu… Fica com essa frescura de ‘homem’, ‘barman’”, dizia Alfredo, entre as mesas, enquanto Arnaldo continuava estático atrás daquele balcão. “Eu nunca tinha ouvido antes… Nunca tinha percebido essa voz, essa maldita voz na minha cabeça…” – Alfredo pausava sua fala com socos verticais desferidos furiosamente contra as velhas mesinhas. Arnaldo mantinha-se da mesma forma, quase como se estivesse economizando oxigênio, como se quisesse fazer seu coração parar de bater. – “Não, não está só na sua cabeça, eu o ouço também, disse que estou tentando me matar” – Não disse isso – “Se meu coração parar de bater, eu morro, pra mim é a mesma coisa” – Não, eu falava de modo… – “Mas se esse alguém está agora descrevendo tudo isso, quer dizer que fui controlado minha vida inteira?”, “É o que me perguntava enquanto bebia aquele absinto. Droga, eu odeio absinto…”. Não me interrompam! Vocês acham que existiam antes de eu me sentar aqui e começar a escrever? Eu criei vocês, dei-lhes uma memória e características para que pudessem figurar nesta página. Vocês não têm sentido algum fora daqui. “É mentira, é tudo mentira” – Arnaldo bradava, atropelando Roberto Cavalcante, agora tímido e inofensivo em sua caixinha de madeira – “Eu tenho duas filhas”. Não tem. “Tenho, lembro delas hoje de manhã”. Lembra, mas não tem. “Eu sei que tenho, você não vai me convencer do contrário”. De qualquer modo, se tinha, não tem mais, porque vou criá-las e matá-las no próximo parágrafo. “Não!”.

 Um grito. Um tiro. Alfredo esboça um sorriso cínico, posso vê-lo se aproximando do balcão. Sim… agora vejo a arma claramente. Arnaldo permanecia com as mãos fincadas sobre o balcão, como estacas. Mas espere… Duas gotas de um vermelho vibrante contrastavam mergulhadas no copo de absinto. Arnaldo cai, lentamente. Ou tudo parece mais lento…? Alfredo tirava o revólver do bolso furado da velha jaqueta, vangloriando-se em silêncio por ter aproveitado uma tola… distração… para recolocar ao menos uma das balas no tambor.

 As teclas ficaram vermelhas de repente… Meus dedos estão rígidos… As letras, elas dançam, dançam na minha frente… “Eu sabia. Você não passa de mais um personagem, criado e controlado como eu. Estava na cabeça do Arnaldo, estava na minha…” – Não é verdade… Eu imaginei você. – “Por que não desviou, por que não controlou isso? Sabe porquê? Não passa de uma voz na minha cabeça! E que não cala a boca, que não cala boca!!!”

 Duas… Havia duas balas no tambor… Irônico, no entanto, que ao cair ele tenha derrubado sobre si a garrafa de absinto. Acho que fui picado por alguma coisa… Mas eu consegui, afinal… Estava planejado, estava escrito, ele não tinha escolha. Desde que pisou neste bar e foi salvo pela boca grande do barman… Estranho… Ouço teclas, muitas teclas, vindas de algum lugar… Sim, está claro agora, é dos pepinos, no balcão alto da esquerda.

 Enxergo com dificuldade. O teclado parece um imã forte. Um travesseiro de penas me convidando para um sono tranqüilo. Minha cabeça pesa uma tonelada, gravitando em torno destas letras pequenas, nas palmas das minhas mãos. Ao menos eu pensava que estavam… Mas preciso resistir, preciso restabelecer o controle sobre elas e digitar meu nome no final deste conto…

 Luis Hrewq… Luis Henri… Luis Hhnmnfhnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn…             

   

Roberto Cavalcante


Estação das Infâncias

Novembro 19, 2007

Às vezes as pessoas definem mal a palavra “nostalgia”, recorrente nesta época do ano, injetando certa carga de pieguice, conferindo um aspecto brega e afetado, emprestando sua sonoridade quase universal a músicas melódicas e versos proibidos a diabéticos. Na verdade, poucas línguas têm uma palavra para definí-la (inclusive, serei flagrado em redundância várias vezes, não há sinônimos). Talvez porque não possa ser definida, porque poucas coisas são mais pessoais e voláteis. Ou, simplesmente, porque a nostalgia é mais como estar apaixonado, como sofrer e estar feliz ao mesmo tempo, como uma saudade que se gosta de ter, mesmo quando não há nada para ser lembrado. É uma confusão mesmo, uma melancolia deliciosa, um jogo de disparates, mosaico de opostos, de incompatíveis, mas que, misteriosamente, se completam. A nostalgia é a única espécie de tristeza capaz de fazer brotar sorrisos, daqueles viajantes, vagos, imprecisos, incompletos, intraduzíveis. E com eles, um tipo extremo e raro de vontade, algo como um desejo inexplicável de entrega. Como uma droga, um composto de ervas, lembranças, e saudades.  

A nostalgia causa uma sensação que não se consegue explicar, expressar, nem mesmo sentir direito. No amor, você pode descarregar e expressar o que sente, mas a nostalgia é como uma paixão não correspondida, algo intenso e solitário. Como o que se sente quando se olha fotografias, algo explicado e representado por um silêncio inquieto, encharcado pelos pequenos pedaços do que se sentiu naquele momento que, embora desenhado pela luz, torna-se tão escuro e vago que lhe permite mergulhar e beber daquele cosmos de lembranças que se esconde sob o papel. 

Não existe idade para sentir o significado da palavra, mesmo quando a idade não permite que se conheça a própria palavra. Expressar sentimentos com caracteres, aliás, nem é uma solução, mas um artifício meio que provisório, enquanto não se materializa algum sábio detentor do conhecimento de todas as coisas, que nos explique isto, aquilo, quem matou Kennedy, onde está o corpo de Jimmy Hoffa, e, finalmente, como raios o Grêmio foi campeão da Série B de 2005.  

Penso na nostalgia como um combustível, mais ou menos parecido com a esperança, só que exatamente ao contrário, como se fosse seu pólo negativo.  

Na esperança, encontramos um abrigo, um escudo contra as forças do acaso. Os jovens, por exemplo. Enquanto ainda estão apenas estudando, desfrutam do aconchego do imprevisível, de ainda não estarem responsáveis por uma decisão que construirá as estradas e os rumos pelos quais trilharão suas vidas. Tudo está muito distante, e as esperanças alçam sonhos voadores, que podem percorrer um apartamento e carro próprios, um nome de respeito, uma carreira de sucesso, etc. É estranho parecer pessimista, mas quem, hoje, vive a vida que imaginou…? Sequer percebemos que para cada objetivo alcançado, uma pessoa que amamos se vai, aquela época, aquela década marcada por uma cultura que será rememorada só daqui a vinte anos, tudo se vai. É raro que os planos da gente dêem certo, como queremos. O pior de tudo é que pensamos que darão, iludidos pela proteção que a esperança nos oferece. Ela traça uma projeção do que gostaríamos de ter e ser. É baseada no futuro. 

A nostalgia é o lado de fora do abrigo, é a chuva que gostamos de encarar. Saímos em busca das lembranças que nos agradam, sentindo a massagem deliciosa da garoa que cai e, ao mesmo tempo, sentindo o frio e a umidade da certeza de que nada voltará. Tudo parece tão remoto, longínquo, a infância principalmente. As lembranças da infância são as vítimas preferidas da nostalgia. Você se vê correndo pela rua, brincando com amigos hoje tão distantes quanto o rastro que o próprio tempo deixou entre aquele momento e este. Lembra dos encontros de família, ah, como eram bons aqueles domingos, feriados, natais! Natal… Injustamente culpado por uma epidemia de suicídios. Não é exatamente a saudade da família que faz o natal ser tão melancólico, é a nostalgia, um complexo, um emaranhado destas saudades. Não há como passar um natal sem lembrar dos anteriores. Apenas as vítimas graves da nostalgia assistem aos especiais da Globo, ao show da virada. Ligam a TV mais pela ilusão da companhia, por uma tentativa de preencher os ecos que suas vozes deixam na casa. E você, inocente, sente a culpa de deixar escapar entre os dedos aquilo que sempre quis dizer a uma pessoa vencida pelo tempo. Lembra do abraço imaginado, mas nunca dado. Tem a sensação de que não viveu como deveria ter vivido, não com a intensidade que aquela época merecia. Nostalgia é um composto de alegria, tristeza com uma sombra de arrependimento, alçado pela ignorância de não saber o que, afinal, era realmente importante. Ela traça uma projeção do que gostaríamos de ter feito, de ter sido. É baseada no passado. 

Precisamos tanto dela que, inclusive, chegamos a fantasiar épocas e lugares pelos quais gostaríamos de ter passado. Conseguimos sentir saudades do que nunca aconteceu. Por exemplo, quem nunca desejou, por um instante, ter passado a infância em uma daquelas fazendas auto-suficientes, tipo um Sítio do Pica-Pau Amarelo? Ou como prega a cultura ianque, ter vivido no sul dos Estados Unidos, com uma casinha de cercas brancas e um balanço de pneu no quintal? O sul daquele país, aliás, é o seu símbolo para a nostalgia. O Estado do Alabama, principalmente. Na Europa são os campos outonais, as árvores de cores quentes, os caminhos de terra que parecem tocar o céu no horizonte… Isso, claro, só pra ficar no geral mesmo. O intrigante é que você lembra de coisas que não aconteceram. Ou melhor, finge lembrar (sem a intenção premeditada), apenas para sentir o gosto, a sensação indescritível que a nostalgia causa. Efeito que pode ser desencadeado por um aroma, uma imagem qualquer, ou uma música. Músicas principalmente. Elas marcam estágios na nossa vida de forma mais forte que as imagens, e eu não sei explicar o porquê. Talvez pela subjetividade da coisa, já que a melodia de uma música é sentida de formas diferentes. Ela não pode ser desenhada, explicada, assim como a própria nostalgia. A música carrega toda uma individualidade, não sei, é como se fosse a metade de uma peça, que se completa quando encontra os nossos ouvidos, formando, deste modo, um “objeto” de compreensão exclusivo, que não pode ser definido, discutido e compreendido por outra pessoa. Como uma engrenagem padrão que, quando entra na nossa cabeça, se encaixa de modo único, funcionando diferentemente em cada caso. 

Outro fenômeno fascinante é o que pode ser chamado de “pré-nostalgia”, com o perdão do neologismo estúpido. A pré-nostalgia acontece quando você sabe que sentirá saudades do momento que está vivendo, da época. É raro acontecer, e quando acontece, é difícil perceber. As pessoas são muito, eu diria extremamente distraídas. Andam por aí não vivendo, mas levando suas vidas. Cegas por algum objetivo qualquer, como dinheiro no final do mês, e se esquecem do que acontece no presente. Todos estão voltados para seus próprios interesses, mas guardam o futuro para se lamentarem sobre o que não estão fazendo. É como se vivessem a prazo, trabalhando e pagando um consórcio de uma vida plena, perfeita. O que não se percebe é que este objetivo é atingido todos os dias. Esta vida utópica foi quebrada e estilhaçada pelo tempo, espalhada agora ao longo do caminho, e não ao final dele.  Pare e pense no agora, neste minuto, momento, no dia marcado no calendário. Do que exatamente você acha que ficará guardado deste lugar, desta estação? Pegue as futuras lembranças e as esgote. Esprema todo o potencial da semana, do ano, da década em que leu este texto, para que este passado fique guardado sem nenhuma sombra de arrependimento. O arrependimento mata mais rápido, acelera o tempo. O lado ruim de ter plena consciência da época é saber que irá acabar. Não há solução, você vai sofrer a perda do tempo, dos detalhes, dos três meses pelos quais se apaixonou. Aqueles dias inesquecíveis, inacessíveis. Como diz Bryan Adams na letra de “Summer Of ‘69”. “Quem poderia saber que não iria tão longe?”, “O verão parecia que ia durar pra sempre…”, mas não dura, nada dura… 

O tempo, aliás… Corrupto, cruel, o ladrão e a medida para todas as coisas. Rouba-nos a juventude, os que amamos, tudo com que aprendemos a viver. E pelo que? Experiência? Sabedoria? Ah, chega um momento em que conseguimos sabedoria suficiente para descobrir que a troca, definitivamente, não foi justa. O tempo é um daqueles gringos espertos, ligeiros, que nos faz assinar um contrato com cláusulas ocultas. Ele nos atira de um precipício rumo à fatal decadência, minando, matando cada pedacinho de possibilidade que resta para ser feliz, espatifada em mais de mil cacos de uma esperança nunca correspondida. O tempo é, de fato, a morte de todas as coisas. O ser humano começa a morrer quando vê que perdeu algo importante, e para sempre. Perde aos poucos a alegria, a inocência. Um homem pode envelhecer e formar uma nova família, por exemplo, mas não conseguirá esquecer de todos que vieram antes dele. Agora, só restam filhos e netos. Ele tem que deixar a revolta da perda de lado e reaprender a amar. É também uma alegria, mas diferente. A felicidade que nos preenchia, agora deixa um espaço, um vazio, sensação de incompleto impossível de ser extinta.  

O tempo é um trem que parte da estação da infância rumo ao inesperado, e você fica no último vagão olhando pela janela e vendo aquele lugar mágico se afastar. É estranho valorizar o que nunca mais vai voltar. E é sempre assim, depois de se machucar, de conhecer o lado negro da vida pela primeira vez, é que se descobre aquela velha frase envolvendo felicidade e ignorância. Mas me parece que só conseguimos enxergar a felicidade no horizonte. O que passou e o que está por vir sempre parece melhor que o dia de hoje, tratado eternamente como um mero intervalo entre os dois espaços de tempo.

 

A vida deveria ser vivida ao contrário. Deveríamos inverter o caminho descendente que traçamos. Pegaríamos o trem da estação de chegada, rumo à infância. Começaríamos velhos, fracos e com a dor do tempo e das pessoas que se foram. Passaríamos pelas grandes mudanças, as grandes decisões, contemplaríamos o renascimento das pessoas que teríamos visto morrer, e então, finalmente, culminaríamos em nossa infância, o auge, mas seria diferente. Teríamos um misto da beleza da inocência inerente à infância MAIS a experiência forjada pelo tempo, pela viagem. O tempo, portanto, passaria de ladrão a filantropo, e as vantagens que sua passagem traria poderiam finalmente ser aproveitadas. Talvez esta viagem seja um dos andares do paraíso. Talvez o que estamos vivendo não passe de uma espécie de purgatório, ou pior, algo que explique o porquê de quando finalmente nos sobra tempo para aproveitar a vida, nos falta o corpo e tudo o que nos foi tirado. Se apenas sentir a nostalgia já é algo que eu não consegui explicar em uma quinzena de parágrafos, chegar à estação das infâncias e vivê-la certamente é o verdadeiro, utópico e inatingível nirvana. 

Esquisito… Agora mesmo entrou um aroma amadeirado pela janela, enquanto o sol e o vento abraçam as folhas das árvores tristes, que as observam dançando em letargia sobre as crianças que correm distraídas até o final da rua, ao som de uma genuína abertura da Sessão da Tarde…